A Literatura

Os Miseráveis é um daqueles livros que te convencem da sacralidade da literatura. Lia-o ontem. Se alguma é minha religião, a literatura ocupa esse posto. Morasse na Alemanha, doaria meu dízimo da fonte para a religião literária. Pensei em outros livros com esse status sagrado, à cabeça me vieram vários: Os Ensaios, A Montanha Mágica, Ulisses. Vários outros. Pra não falar da Bíblia – A Ilíada.

Claro, esse é meu templo particular, mas o templo literário – dos que seguem o credo, claro – é composto de livros mais ou menos comuns, todos pertencentes a um cânone – o depósito de cultura de nossa civilização. Nossas pinturas rupestres para gerações futuras. Não analiso aqui o que define um clássico. Harold Bloom, Italo Calvino, entre outros, já fizeram isso de maneira muito mais competente que eu.

Meu objetivo é entender a atração, minha e de outros fiéis, pela literatura. Enquanto lia Os Miseráveis, ontem, pensava nisso. Por que não conseguia me desviar da ficção de Hugo? Pensava nas personagens, nas teses sobre Paris que demoram páginas e mais páginas, e ainda assim, passam leves. Todas as referências, que em maioria não fazem sentido para o leitor atual.

Digressão: um dos prazeres da literatura são as referências. Quando um escritor as põe, ele te dá o dever de conhecê-las. Por mais que existam notas de rodapé, a falta de conhecimento às referências leva à perda de ritmo, e nunca vai haver compreensão completa. São como palavras desconhecidas, só que sem um dicionário para checar, e que fazem total diferença para o sentido geral. É difícil entender quando Philip Roth fala de Aschenbach e Tadzio, se você não conhece a referência. Ao mesmo tempo, saber que Aschenbach é inspirado em Mahler muda completamente a perspectiva que o leitor pode ter de uma mera citação em um livro de Roth. Em resumo, pois temo ter perdido o ponto: referências são as palavras mais importantes de um livro. São a definição mais perfeita e mais hermética para um conceito que o autor queira apontar. Ao mesmo tempo, nenhum livro vem com um pequeno receituário: “Para a melhor compreensão, é necessário a leitura prévia das seguintes obras …”

Aí vai uma ideia para irritar leitores. Escrever um romance dependente de outros romances, e alertar explicitamente antes. Talvez colocar um ou outro livro em excesso na lista prévia, para forçar críticos literários a encontrarem a relação, e, ao mesmo tempo, forçar o leitor a ler um livro da preferência do autor, e, assim, recuperar referências.

Continuando na digressão, as referências te dão, além disso, a oportunidade de conhecer alguma coisa que se perdeu. Montaigne, por exemplo, morrerá em definitivo em breve. Anatole France, que, simplesmente, controlava todo o cenário literário mundial da virada do século, que fez Carlos Drummond falar besteira (segundo o Mario de Andrade, pelo menos), está morto. Morto, mais falecido impossível. Não encontrei, em nenhuma livraria, edições de sua obra, nem em português e nem em francês. Em sebo devo encontrar, mas gostaria de entender o que matou Anatole. Aliás, Stendhal é o próximo falecido. Tinha uma influência tão grande até a década passada, e, agora, está completamente esquecido. Um agradecimento público que faço é aos definidores das referências em literatura, por salvarem Padre Vieira.

Prometo que aqui acaba a digressão que me comeu quase todo o texto. Qual é o fascínio pelos grandes mestres da literatura? Encontrei um esboço de resposta ontem, enquanto lia Victor Hugo. Jean Valjean, que por sinal nem apareceu nas cinquenta páginas que li, é o exemplo máximo de perfeição cristã. Ele é um super-homem sem poderes, exceto o dinheiro (que só Victor Hugo poderia legar-lhe) e um excessivo senso de caridade. Uma espécie de precursor de Batman.

Mas além de Jean Valjean, Victor Hugo é um super-herói. Ele, ao contrário da personagem, tem um poder. Ele pode escrever de uma maneira que eu jamais poderei. Por mais que eu me dedique a ser um falsário, eu nunca chegarei à perfeição do plágio. Por mais que eu me dedique a escrever de maneira própria, aos meus olhos eu nunca vou chegar à perfeição de Victor Hugo, e o mais bonito é que não há maneira objetiva de medir a qualidade literária. Por mais que eu crie meu épico, em minha mente eu nunca chegarei ao nível de James Joyce. Mesmo que um leitor meu possa me colocar em um altar em seu templo literário, eu vou morrer mortal.

Bons autores são os únicos super-heróis de que tenho conhecimento. O poder de criar boa literatura é um dos poucos que são únicos. E é esse o fascínio da literatura, a contemplação de sua própria incapacidade e a crença em algo maior possível neste mundo.

Word Count

L’Esprit du Temps, by M. – 14.600

The Metamorphosis, by Franz Kafka – 21.810

Anúncios