Crônica pretensiosa com Ernest Hemingway.

Ernest Hemingway se dirigia para minha casa. Tive a sorte de conhecê-lo um desses dias enquanto comia um lanche na padaria. Ele sentou a meu lado e pediu uma omelete e um conhaque. Reconheci sua barba e as queimaduras em seu braço. Fiquei sumamente impressionado e comecei a puxar um assunto, quem não puxaria, afinal de contas? Ele se interessou quando descobriu um fã de Graciliano Ramos na padaria, e assim o convidei pra comer uma pizza em casa. Ele não gosta muito dessa coisa de celular, então marcamos que ele apareceria no meu apartamento às 8 e só me restava esperar.

Lá pelas nove o porteiro anunciou que Ernesto queria subir e eu deixei entrar. Hemingway estava em São Paulo há alguns meses, mas não tinha feito nenhum grande amigo, apesar de sempre andar pelos círculos intelectuais. Ele gostava do Brasil, ainda que sentisse a falta do pundonor espanhol. E claro, lamentava profundamente a falta de um bom lugar para caçar ou pescar nas redondezas.

Então ele entrou levemente embriagado, elogiou o aconchego de meu lar e pediu alguma coisa para beber. Fiz uma caipirinha improvisada e tomamos enquanto esperávamos a pizza. Ernest elogiava a sinceridade de Graciliano, sobre como ele se sentia angustiado ao ler a morte da cachorra Baleia. Ele ainda lutava com o português, apesar da semelhança com o castelhano, e mantinha o sotaque que claramente denunciava sua nacionalidade.

Terminou o primeiro drink enquanto eu começava a apreciar o meu, então dei a minha caipirinha a ele e fui fazer outra para mim, e ele me olhava atentamente ao fazer a bebida. Parecia que queria aprender passo a passo, para fazer em alguma festa quando retornasse aos Estados Unidos.

Então ele reparou que eu não bebia muito.

“É verdade, eu não bebo muito”.

“Eu não consigo entender por que você é ansioso, então.”

“Como?”

“Todo sujeito ansioso que eu conheci só o era até conseguir a próxima dose. Me lembro do Scott”.

“Interessante o que você fala, o médico disse que eu sofro de ansiedade, mesmo.”

“Você foi num médico para isso?”

“Sim, por quê?”

“Interessante.”

Uns minutos mais e a pizza chegou. Ernest havia entornado três coquetéis e eu havia desistido de fazer mais caipirinhas e lhe servia logo a cachaça pura em shots, o que ele apreciava e agradecia. Eu tomava uma cerveja, e devo ter vertido uma ou outra dose de cachaça pura, e minha cabeça já começava a girar. Comemos a pizza, o que foi um grande alívio para mim, e resolvi passar para a Coca-Cola, deixando meu companheiro sozinho na bebida – ele aparentava maior sobriedade que eu.

Voltamos a discutir literatura brasileira. Eu confesso que estava bem desatualizado sobre os nacionais, basicamente parei nos clássicos e resolvi me dedicar mais à literatura estrangeira – inclusive li quase tudo do Papa que estava agora à minha frente. Pensei em lhe recomendar Guimarães Rosa, mas não achei que ele tivesse português suficiente para apreciar. Escolhi um ou outro Machado de Assis da minha biblioteca para lhe emprestar, e recomendei veementemente que ficasse longe de José de Alencar.

Ernest começou então a cochilar no meu sofá, ou a tentar, já que o brilho dos monitores e o barulho do computador o incomodavam muito.

“Então você sofre de ansiedade?”

“Sim, sofro”

“E como é isso?”

“Bom, é como pensar em uma coisa e não conseguir concluir por já ter outra coisa nova na mente. Aí quando você pensa em fazer alguma coisa, uma outra ainda aparece na sua cabeça que te impede de fazer qualquer uma de todas as coisas que você esteja pensando. Você quer, não sei, sair pro parque, mas aí você pensa em todas as coisas que podem te acontecer no caminho pro parque, e em todas as opções que você vai deixar de aproveitar pra ir na porra do parque. Ao mesmo tempo todas opções não parecem ser boas o suficiente para compensar a não-ida ao parque, e no final você fica em casa. E tem um ruído constante na sua cabeça que não para e as pessoas te mandam meditar. Entende?”

“Acredito que sim. É uma doença de quem vê excesso de opções.”

“Eu diria que sim. É a doença do custo de oportunidade.”

“Muito bonito”

“Como?”

“Às vezes eu queria ver uma opção que fosse. Mas por que você não desliga esse computador?”

“Eu queria, mas aí eu durmo pior. Fico com medo de acordar de madrugada e não conseguir acessar o computador logo, e por fim acordo de madrugada.”

“Que loucura. Que bom que você nunca esteve na guerra, você seria o primeiro a morrer.”

“Acho que sim.”

Ele se virou no sofá tentando mais uma vez cochilar.

“Você sabe”, disse com a cara virada para o encosto do sofá e com a voz meio abafada pela almofada, “eu acho que Hamlet tinha esse distúrbio.”.

“Ser ou não ser. Você deve estar certo”.

Ele ainda murmurou antes de dormir.

“Ansiedade. Queria sofrer disso. Acho que o Scott era ansioso de verdade.”

 

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L’Esprit du Temps, by M. – 13.081

The Metamorphosis, by Franz Kafka – 21.810

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Retratos fictícios de São Paulo | Seu Jairo

Seu Jairo é taxista, e tem uma frota na Rua Gaivota, em Moema. É um cara moderninho, tem GPS e localizador em todos seus dez táxis. Implementou ultimamente um aplicativo que permite que os clientes localizem seu táxi mais próximo. É conhecido no bairro, todos gostam de sua presença.

O taxista é o exemplo do self made man. Começou como taxista de um rádio taxi, mas foi economizando e juntando dinheiro até poder comprar sua própria viatura, e depois, o próprio ponto. A prosperidade seguia e alguns anos depois comprou seu segundo táxi. E daí foi um pulo para montar o resto da sua frota – e também para comprar um apartamento em Moema, na Rua Pavão.

“Sempre quis morar perto do trabalho. Como você sabe, o trânsito é o maior inimigo do taxista. Assim, acordo as seis, levo minhas filhas pra escola a pé e começo o dia”. O ponto funciona vinte quatro horas, mas depois de quase trinta anos de trabalho, Seu Jairo passa o turno da madrugada para dois de seus funcionários, ainda que afirme que trabalhou nas noites paulistanas durante muito tempo e saiba das dificuldades e perigos.

“Todo sábado à noite acontecia de alguém vomitar no meu táxi, e eu perder a noite inteira de trabalho. Fora os assaltos”. Seu Jairo já foi assaltado mais de dez vezes em sua carreira, e todos seus empregados o foram pelo menos uma vez. A violência sempre foi uma constante na cidade, apesar de Seu Jairo achar que melhorou com o tempo.

Acompanhamos o taxista em todo dia de trabalho. Começou com um cliente antigo, que trabalhava em um dos escritórios da região, que já havia reservado uma viagem ao aeroporto. Seu Jairo estava animado, são as viagens ao aeroporto que dão mais lucro. Pegamos um pequeno trânsito, e Lopes – o passageiro – estava um pouco preocupado em perder o voo.

“Conheço o Seu Jairo há mais de dez anos, ele já é uma referência em Moema. É um taxista idôneo, que não engana o cliente e faz de tudo para que o passageiro desfrute da melhor viagem possível”, diz Lopes. E pudemos atestar que é verdade. O táxi de Seu Jairo é um modelo espaçoso, e possui uma televisão por satélite instalada. O chofer se orgulha, dá pra ver até canais alemães e chineses.

“Outro dia entrou um grupo de franceses do meu táxi, eu coloquei na televisão de lá, estava passando notícias, eles ficaram extremamente agradecidos e deixaram uma bela gorjeta”. O taxista conta que aprendeu o inglês ano passado, fez um curso noturno com um de seus funcionários. Agora, ele diz, quer que todos no ponto aprendam o idioma para a Copa. Ele mesmo já se arrisca no Espanhol, mas confessa que não sabe nada da língua: “É meio parecido com o português, né? Eu aprendi alguma coisa como calle, tarjeta, dirección, já dá pra conversar”.

E Seu Jairo gosta muito de conversar. Sempre conta suas histórias de tempos passados em São Paulo e dá suas opiniões. Seus alvos preferidos sempre são os prefeitos. Mesmo os que tem a simpatia de Jairo sofrem críticas. O único imaculado é Jânio Quadros. “A cidade era um brilho nos tempos do Jânio. Eu achava lindos os ônibus de dois andares”. Questionado se eles não atrapalhavam o trânsito, Seu Jairo é enfático: “Não mais que esses biarticulados! Que ideia terrível! Isso só acontece no Brasil. Imagine se a Nhambiquaras é lugar de passar ônibus, quanto mais biarticulado! Mal passa um carro ali”.

A solução para o trânsito, segundo Seu Jairo, é muito fácil. É só construir mais metrô. “Eu tenho vários clientes engravatados que pegam táxi nos dias de rodízio, e todos eles dizem que deixariam o carro em casa se houvesse metrô da porta de casa à porta do trabalho. E olha que são bem ricos!”.

Seus clientes mais frequentes gostam de ouvir a opinião do taxista – ele não acredita na necessidade de pena de morte para estupradores, mas defende veementemente castrá-los quimicamente. Ele também não é a favor da volta dos militares, mas é um dos poucos malufistas restantes.

Após deixar Lopes no aeroporto, Seu Jairo aproveitou e pegou outros passageiros, dessa vez dois americanos que vieram a negócios e ficariam no Renaissance da Alameda Santos. Seu Jairo nos proibiu de falar português no carro, e em inglês fomos até o hotel, fazendo algumas perguntas aos passageiros.

Eles confessaram que o maior medo que sentiam do Brasil era a violência, e ficaram extremamente temerosos quando passamos pelas favelas ao longo da Ayrton Senna. Seu Jairo os tranquilizava, e dizia que não passariam por nenhum problema – ligou a televisão na CNN para deixar seus clientes mais confortáveis.

Quando pediam dicas, Seu Jairo era sempre atencioso e recomendava lugares clássicos de São Paulo, como o Sujinho. “Se vocês gostam de carnes, é a melhor bisteca que vão provar, posso garantir”. Ao chegarmos ao hotel, o taxista desceu, tirou as malas e entregou o cartão a seus passageiros. “Podem me chamar quando estiverem voltando, levarei vocês com a maior satisfação”.

Sempre que pega algum cliente estrangeiro, Seu Jairo faz questão de deixar seu cartão. “Metade realmente me liga para leva-los ao aeroporto na volta”. Nisso já era quase meio dia e Seu Jairo sugeriu um almoço no próprio Sujinho – ficou com vontade após a sugestão dada.

Enquanto comíamos a famosa bisteca, Seu Jairo falava alguns dos principais problemas que via na cidade. A falta de segurança, é claro. E o trânsito. Além disso, reclamou do excesso de mendigos nas ruas, dos noias do centro da cidade. “Alguém deveria fazer alguma coisa por aquelas pessoas”. Seu Jairo pediu uma água com gás e falou que antigamente possuía o hábito de tomar uma cervejinha no almoço – mas agradece a conscientização que a Lei Seca trouxe. Para ele essa foi a melhor lei feita no Brasil. Essa e a Lei Antifumo. Também é grande fã do ex-governador José Serra, mas não o poupa de suas críticas.

Após o almoço, Seu Jairo colocou o táxi para funcionar de novo, e antes de cinco minutos um passageiro o chamou. Era um jovem que ia para a Universidade de São Paulo, assistir a uma palestra. Seu Jairo lhe ofereceu o jornal e começou a discutir as notícias do dia. Como todo taxista e praticamente todo brasileiro, não dispensa um futebol e sabe as notícias de todas as contratações dos clubes brasileiros e europeus. O jovem desceu no seu destino, e Seu Jairo rumou para Moema.

Após algumas viagens curtas, Seu Jairo voltou para casa. Hoje não iria trabalhar à noite. O caixa registrava quinhentos reais. “É um dia médio, às vezes conseguimos mais, outras vezes menos, depende da sorte”. Fechou a conta e agora iria para um curso de profissionalização do sindicato com seu funcionário mais antigo, Maurício. Parou em casa para tomar um refresco e ver a mulher e as filhas.

Dona Larissa havia acabado de chegar em casa, trabalha em uma agência bancária a poucas ruas de distância. “É bom porque dá pra buscar as filhas no horário de almoço, eu deixo uma coisa pronta aqui de noite e nós comemos de dia”.

“Essa aqui tá pensando em seguir carreira no turismo”, apontou  Seu Jairo orgulhosamente para a filha mais velha, Tainá, de 16 anos. Seu Jairo não quer que nenhuma de suas filhas siga carreira de taxista – mesmo que tenha uma funcionária mulher no ponto, acredita que é uma profissão muito perigosa, especialmente para uma mulher sozinha. “Deixá-las dirigir um táxi seria um medo constante, essas ruas são muito perigosas”.

Mas gostaria que as filhas herdassem o ponto construído pelo pai com tanto esforço, e Tainá até esteve presente na reunião com a empresa de aplicativos para táxi. “Foi meio sem querer, eu tinha interesse em aplicativos no celular, e fui com meu pai para a Livraria Saraiva do Shopping Ibirapuera, para ver livros. No entanto, o papo no café estava tão interessante que eu até fiz algumas perguntas”, diz a jovem.

Tamiris, mais nova, tem apenas oito anos, e por enquanto os únicos táxis que se interessa são os de brinquedo, que comprou na viagem que fez o ano passado com a família para Orlando. “A alegria dessa menina no avião foi o combustível pra todo esse ano de trabalho, essa família é tudo para mim”, conta Seu Jairo, com um princípio de lágrimas nos olhos.

Desceu então e encontrou Maurício, e seguiram para o encontro no táxi deste. “Trabalho com o Seu Jairo há vinte anos, e não é porque é meu chefe, mas encontrar outro igual a ele é impossível. É meu amigo mais do que patrão”. Seu Jairo agradeceu timidamente, e falou que estava pensando em abrir sociedade com Maurício para expandir a frota.

Participaram da reunião e fizeram inúmeras perguntas. O tema do curso era como inserir tecnologia no dia a dia do taxista. Voltaram para Moema pelas dez da noite, cansados, mas satisfeitos.

“Eu escolhi ser taxista meio que por acaso. Gostava muito de dirigir, e pensei que podia fazer algum dinheiro com isso. Descobri nisso meu dom, e não poderia ser mais feliz. Quero agora só expandir minha frota, e continuar com o bom trabalho”, conclui Seu Jairo, com um sorriso sincero no rosto.

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L’Esprit du Temps, by M. – 9736

The Metamorphosis, by Franz Kafka – 21.810

Homenaje a Chavela Vargas

“La muerte es lo más hermoso del mundo, es así como una bailaora de flamenco, peluda y morena y además agresiva.” – Chavela Vargas (1919 – 2012)

Quisiera yo ahora un poema o una historieta que dijera a mí lo que dice Chavela Vargas. Aquella América o España tristes, que saben de su estado, y que te muestran, te asombran, hacen todo contigo al mismo tiempo, como un viaje psicodélico por paisajes áridos al sonido de una guitarra, una guitarra gitana, una guitarra ranchera. Y la voz de Chavela que te guía y te rasca, que te corta el corazón, y te hace llorar como un niño, un niño que no sabe por qué llora, pero llora y no quisiera nada más que su mamá, que le acariciara el pelo y le cantara – una otra vez como Chavela, como el espíritu de Chavela – y recitara las palabras ciertas aunque duras, que traerían paz. Y como un mantra que se repite por toda la humanidad, la voz de Chavela Vargas, las costumbres rurales y quizás un buen poema realista mágico nos dejan en paz. Las frases habladas por Chavela en el intervalo entre las canciones, las pequeñas lecciones de sabiduría. Y escuchamos, y lloramos, y nos sentimos en paz en un espectáculo de catarsis. Y no hay arrepentimientos.

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L’Esprit du Temps, by M. – 6839

The Curious Case of Benjamin Button, by F. Scott Fitzgerald – 9129

Descascador de grão-de-bico

Pedro entoava em sua mente o mantra Hare Krishna. Ao mesmo tempo fazia um trabalho que não necessitava ser feito caso algum programador tivesse planejado corretamente o software de distribuição de ações entre corretoras. O trabalho consistia em desmarcar uma casa, apertar a seta para a próxima, e confirmar quando saltasse a caixa de alerta. Desmarcar uma casa, apertar seta, confirmar quando saltasse. Era como descascar grãos-de-bico um a um para a salada do Natal, mas sem saber quando o fim estava chegando.

Antes de começar estimava quantas vezes teria que fazer isso. Um milhão de ações. Se estivessem distribuídas em lotes de duzentas, teria que repetir o processo cinco mil vezes. Quinze mil cliques. Desmarcar a casa, apertar a seta, confirmar. Tomando dois segundos por operação, seriam dez mil segundos, quase três horas. Obviamente a firma não deixou instalar um programa de repetição de cliques.

O mais aflitivo era não saber a funcionalidade dessa tarefa. Na verdade, nem as pessoas que lhe ordenavam fazer isso sabiam a utilidade. Era uma simples falha de sistema, que atualização após atualização ninguém se atrevia a resolver. O trabalho de Pedro em sua maior parte resumia-se a fazer coisas que não precisavam ser feitas.

Se consertassem todas essas falhas, Pedro poderia ser demitido. E a verdade é que mesmo não pensando muito nisso, essa perspectiva não lhe desagradava. Desmarcar a casa, apertar a seta, confirmar.

Para que isso não se tornasse seu mantra, Pedro repetia o hino Hare Krishna em sua mente. Nos primeiros dias de seu trabalho tentava rezar Ave-Marias – rosários e mais rosários de ações – mas se confundia no meio da oração, e perdia o ponto que estava. Ou pior, desmarcava a casa errada, tendo que voltar para corrigir.

Se Pedro fosse vegetariano, já poderia se considerar Hare Krishna. Sua rotina de transporte ao trabalho consistia em andar quinze minutos até o ônibus, mais meia hora de condução, pegar o metrô por dez estações, e subir em outro ônibus até a porta do trabalho. Tudo isso de roupa social. Quando encontrava lugar sentado, Pedro lia. Mas como isso era raridade – sendo o mais comum ficar espremido entre várias pessoas – Pedro cantava o Hare Krishna para si ao longo da viagem.

Chegava cedo, comia uma barra de cereal e tomava uma xícara de café, sentava-se à mesa e se preparava. Começava consertando gráficos que vinham errados de fábrica, depois fazia apresentações sobre a excelência do banco em negociação de ações. Escrevia um relatório e pedia o almoço.

Uma hora depois o almoço chegava a sua mesa, geralmente comia um hambúrguer com molho. Quase todos os dias nessa hora chegava o email de uma colega de trabalho que sentava no mesmo andar, mas que ele nunca havia conhecido pessoalmente.

Era um email muito simples, com poucas palavras, seguindo um modelo:

                                               Papel:BBDC4

                                               Tipo: Compra

                                               Quantidade: 127.000

                                               Cliente: X1458BZ31OP

E aí começava a jornada de trabalho Hare Krishna de Pedro. Acabava seu almoço com pouca pressa, sabendo o que lhe esperava, e de pequenos em pequenos lotes fazia o processo por algumas horas, olhando firmemente para um dos quatro monitores sobre sua mesa.

E durante esse processo chegavam outros emails com outras tarefas, algumas urgentes que faziam com que Pedro interrompesse seu mantra. Algumas relacionadas à distribuição de ações, o que levava Pedro mexer no programa e sair do layout de desmarcar casas.

Então completava seu dia, e rumava à faculdade em pleno horário de pico. Mais algumas horas da Consciência de Krishna. Queria se formar e virar gerente. Fazer basicamente as mesmas tarefas, mas ter alguém pra mandar e ganhar um salário melhor. Aplicaria uma parte na previdência privada e com sessenta anos se aposentaria – quem sabe entraria num acampamento Hare Krishna.

Ia para as aulas sobre assuntos distantes, com pouca ou nenhuma aplicação prática no negócio de desmarcar casas, e voltava para casa meia noite, dessa vez lendo textos para sua formação. Dormia e acordava no dia seguinte desperto para sua rotina espiritual de descascador de grão-de-bico.

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L’Esprit du Temps – 1903

The Bet, by Anton Chekhov – 2871

Paisagem hipnótica

Um deserto. Siga minha voz. Um deserto cujo oásis é Casablanca. Mantenha-se calmo, num deserto todas suas preocupações são menores. Preocupe-se em respirar. Casablanca está próxima. As dunas mudam de cor ao longo do dia. Brancas, laranjas, vermelhas, cinzas, azuis. Respire, siga minha voz ao longo da viagem. Caravanas de beduínos cruzam com nossos camelos e nós trocamos algumas palavras. Mantenha-se calmo.

Um deserto de neve. No caminho a Casablanca. A neve começa a cair do céu lentamente, como o maná dos deuses. Respire, siga minha voz. Veja como cai a neve pelo céu azul. Todas suas preocupações são menores. Casablanca está próxima. As dunas permanecem à sua frente, embranquecidas de neve. À noite não haverá mais neve.

Uma pedra esconde uma caverna. Um oásis no caminho do grande oásis. Mantenha-se calmo, a neve continua caindo. Respire, vamos adentrar a cova. Siga minha voz. Ouça o barulho da água correndo. Você sente frio, a caverna é inteira em gelo. Deite-se na caverna. Sinta-se confortável. Você não tem vontade de levantar. Respire e não se preocupe.

Veja a árvore. No meio da caverna ela cresce frondosa, uma oliveira antiga. Os troncos retorcidos. O rio segue a seu lado. Siga minha voz. Respire, ouça o barulho do rio. Você pode se controlar. Observe as estalactites de gelo. Veja como a água pinga no solo arenoso. É muito perigoso nos perdermos. Mantenha-se calmo.

Observe o fogo. Pouco a pouco a oliveira se queima, chamas calmas a consomem. Acalme-se. O fogo não vai lhe queimar. Siga meu comando, você não sente nenhuma vontade de levantar. Respire.  As chamas mudam de cor. Vermelhas, laranjas, amarelas, azuis, verdes. Mantenha-se calmo, observe as flamas até que toda a oliveira vire cinzas.

Atlas, o titã. No lugar da oliveira, veja Atlas. Ele não carrega nada em suas costas, as chamas destruíram o globo. Respire. Mantenha-se calmo. O globo não é necessário. Siga minha voz. A viagem ainda é longa. O titã está livre.

Quero que você se levante calmamente. Siga minha voz nesse momento. Vamos sair da caverna. Sinta a areia nos seus pés. Toque a areia, mexa sua mão. Mantenha-se calmo. Não há mais neve do lado de fora. O calor toma conta de você, começando por suas extremidades. Siga sua viagem. Casablanca está próxima.

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L’Esprit du Temps – 1238

The Bet, by Anton Chekhov – 2871