Retratos fictícios de São Paulo | Seu Jairo

Seu Jairo é taxista, e tem uma frota na Rua Gaivota, em Moema. É um cara moderninho, tem GPS e localizador em todos seus dez táxis. Implementou ultimamente um aplicativo que permite que os clientes localizem seu táxi mais próximo. É conhecido no bairro, todos gostam de sua presença.

O taxista é o exemplo do self made man. Começou como taxista de um rádio taxi, mas foi economizando e juntando dinheiro até poder comprar sua própria viatura, e depois, o próprio ponto. A prosperidade seguia e alguns anos depois comprou seu segundo táxi. E daí foi um pulo para montar o resto da sua frota – e também para comprar um apartamento em Moema, na Rua Pavão.

“Sempre quis morar perto do trabalho. Como você sabe, o trânsito é o maior inimigo do taxista. Assim, acordo as seis, levo minhas filhas pra escola a pé e começo o dia”. O ponto funciona vinte quatro horas, mas depois de quase trinta anos de trabalho, Seu Jairo passa o turno da madrugada para dois de seus funcionários, ainda que afirme que trabalhou nas noites paulistanas durante muito tempo e saiba das dificuldades e perigos.

“Todo sábado à noite acontecia de alguém vomitar no meu táxi, e eu perder a noite inteira de trabalho. Fora os assaltos”. Seu Jairo já foi assaltado mais de dez vezes em sua carreira, e todos seus empregados o foram pelo menos uma vez. A violência sempre foi uma constante na cidade, apesar de Seu Jairo achar que melhorou com o tempo.

Acompanhamos o taxista em todo dia de trabalho. Começou com um cliente antigo, que trabalhava em um dos escritórios da região, que já havia reservado uma viagem ao aeroporto. Seu Jairo estava animado, são as viagens ao aeroporto que dão mais lucro. Pegamos um pequeno trânsito, e Lopes – o passageiro – estava um pouco preocupado em perder o voo.

“Conheço o Seu Jairo há mais de dez anos, ele já é uma referência em Moema. É um taxista idôneo, que não engana o cliente e faz de tudo para que o passageiro desfrute da melhor viagem possível”, diz Lopes. E pudemos atestar que é verdade. O táxi de Seu Jairo é um modelo espaçoso, e possui uma televisão por satélite instalada. O chofer se orgulha, dá pra ver até canais alemães e chineses.

“Outro dia entrou um grupo de franceses do meu táxi, eu coloquei na televisão de lá, estava passando notícias, eles ficaram extremamente agradecidos e deixaram uma bela gorjeta”. O taxista conta que aprendeu o inglês ano passado, fez um curso noturno com um de seus funcionários. Agora, ele diz, quer que todos no ponto aprendam o idioma para a Copa. Ele mesmo já se arrisca no Espanhol, mas confessa que não sabe nada da língua: “É meio parecido com o português, né? Eu aprendi alguma coisa como calle, tarjeta, dirección, já dá pra conversar”.

E Seu Jairo gosta muito de conversar. Sempre conta suas histórias de tempos passados em São Paulo e dá suas opiniões. Seus alvos preferidos sempre são os prefeitos. Mesmo os que tem a simpatia de Jairo sofrem críticas. O único imaculado é Jânio Quadros. “A cidade era um brilho nos tempos do Jânio. Eu achava lindos os ônibus de dois andares”. Questionado se eles não atrapalhavam o trânsito, Seu Jairo é enfático: “Não mais que esses biarticulados! Que ideia terrível! Isso só acontece no Brasil. Imagine se a Nhambiquaras é lugar de passar ônibus, quanto mais biarticulado! Mal passa um carro ali”.

A solução para o trânsito, segundo Seu Jairo, é muito fácil. É só construir mais metrô. “Eu tenho vários clientes engravatados que pegam táxi nos dias de rodízio, e todos eles dizem que deixariam o carro em casa se houvesse metrô da porta de casa à porta do trabalho. E olha que são bem ricos!”.

Seus clientes mais frequentes gostam de ouvir a opinião do taxista – ele não acredita na necessidade de pena de morte para estupradores, mas defende veementemente castrá-los quimicamente. Ele também não é a favor da volta dos militares, mas é um dos poucos malufistas restantes.

Após deixar Lopes no aeroporto, Seu Jairo aproveitou e pegou outros passageiros, dessa vez dois americanos que vieram a negócios e ficariam no Renaissance da Alameda Santos. Seu Jairo nos proibiu de falar português no carro, e em inglês fomos até o hotel, fazendo algumas perguntas aos passageiros.

Eles confessaram que o maior medo que sentiam do Brasil era a violência, e ficaram extremamente temerosos quando passamos pelas favelas ao longo da Ayrton Senna. Seu Jairo os tranquilizava, e dizia que não passariam por nenhum problema – ligou a televisão na CNN para deixar seus clientes mais confortáveis.

Quando pediam dicas, Seu Jairo era sempre atencioso e recomendava lugares clássicos de São Paulo, como o Sujinho. “Se vocês gostam de carnes, é a melhor bisteca que vão provar, posso garantir”. Ao chegarmos ao hotel, o taxista desceu, tirou as malas e entregou o cartão a seus passageiros. “Podem me chamar quando estiverem voltando, levarei vocês com a maior satisfação”.

Sempre que pega algum cliente estrangeiro, Seu Jairo faz questão de deixar seu cartão. “Metade realmente me liga para leva-los ao aeroporto na volta”. Nisso já era quase meio dia e Seu Jairo sugeriu um almoço no próprio Sujinho – ficou com vontade após a sugestão dada.

Enquanto comíamos a famosa bisteca, Seu Jairo falava alguns dos principais problemas que via na cidade. A falta de segurança, é claro. E o trânsito. Além disso, reclamou do excesso de mendigos nas ruas, dos noias do centro da cidade. “Alguém deveria fazer alguma coisa por aquelas pessoas”. Seu Jairo pediu uma água com gás e falou que antigamente possuía o hábito de tomar uma cervejinha no almoço – mas agradece a conscientização que a Lei Seca trouxe. Para ele essa foi a melhor lei feita no Brasil. Essa e a Lei Antifumo. Também é grande fã do ex-governador José Serra, mas não o poupa de suas críticas.

Após o almoço, Seu Jairo colocou o táxi para funcionar de novo, e antes de cinco minutos um passageiro o chamou. Era um jovem que ia para a Universidade de São Paulo, assistir a uma palestra. Seu Jairo lhe ofereceu o jornal e começou a discutir as notícias do dia. Como todo taxista e praticamente todo brasileiro, não dispensa um futebol e sabe as notícias de todas as contratações dos clubes brasileiros e europeus. O jovem desceu no seu destino, e Seu Jairo rumou para Moema.

Após algumas viagens curtas, Seu Jairo voltou para casa. Hoje não iria trabalhar à noite. O caixa registrava quinhentos reais. “É um dia médio, às vezes conseguimos mais, outras vezes menos, depende da sorte”. Fechou a conta e agora iria para um curso de profissionalização do sindicato com seu funcionário mais antigo, Maurício. Parou em casa para tomar um refresco e ver a mulher e as filhas.

Dona Larissa havia acabado de chegar em casa, trabalha em uma agência bancária a poucas ruas de distância. “É bom porque dá pra buscar as filhas no horário de almoço, eu deixo uma coisa pronta aqui de noite e nós comemos de dia”.

“Essa aqui tá pensando em seguir carreira no turismo”, apontou  Seu Jairo orgulhosamente para a filha mais velha, Tainá, de 16 anos. Seu Jairo não quer que nenhuma de suas filhas siga carreira de taxista – mesmo que tenha uma funcionária mulher no ponto, acredita que é uma profissão muito perigosa, especialmente para uma mulher sozinha. “Deixá-las dirigir um táxi seria um medo constante, essas ruas são muito perigosas”.

Mas gostaria que as filhas herdassem o ponto construído pelo pai com tanto esforço, e Tainá até esteve presente na reunião com a empresa de aplicativos para táxi. “Foi meio sem querer, eu tinha interesse em aplicativos no celular, e fui com meu pai para a Livraria Saraiva do Shopping Ibirapuera, para ver livros. No entanto, o papo no café estava tão interessante que eu até fiz algumas perguntas”, diz a jovem.

Tamiris, mais nova, tem apenas oito anos, e por enquanto os únicos táxis que se interessa são os de brinquedo, que comprou na viagem que fez o ano passado com a família para Orlando. “A alegria dessa menina no avião foi o combustível pra todo esse ano de trabalho, essa família é tudo para mim”, conta Seu Jairo, com um princípio de lágrimas nos olhos.

Desceu então e encontrou Maurício, e seguiram para o encontro no táxi deste. “Trabalho com o Seu Jairo há vinte anos, e não é porque é meu chefe, mas encontrar outro igual a ele é impossível. É meu amigo mais do que patrão”. Seu Jairo agradeceu timidamente, e falou que estava pensando em abrir sociedade com Maurício para expandir a frota.

Participaram da reunião e fizeram inúmeras perguntas. O tema do curso era como inserir tecnologia no dia a dia do taxista. Voltaram para Moema pelas dez da noite, cansados, mas satisfeitos.

“Eu escolhi ser taxista meio que por acaso. Gostava muito de dirigir, e pensei que podia fazer algum dinheiro com isso. Descobri nisso meu dom, e não poderia ser mais feliz. Quero agora só expandir minha frota, e continuar com o bom trabalho”, conclui Seu Jairo, com um sorriso sincero no rosto.

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L’Esprit du Temps, by M. – 9736

The Metamorphosis, by Franz Kafka – 21.810

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Religion, Me, Tetris and Iliad.

Estou num momento curioso de redescoberta da divindade. Eu nasci em uma família católica e segui a religião até mais ou menos o momento da minha comunhão. Aliás, minha catequese foi o que mais me desvirtuou. As aulas maçantes e bem mal explicadas não eram nenhum incentivo para que qualquer jovem seguisse qualquer religião. E como sempre fui uma pessoa inconformada, logo comecei a questionar e vi que não tinha motivo para ser católico – para algum desgosto do meu pai, que posteriormente assimilou.

Aliás, numa digressão. Esse ano foi muito importante para o catolicismo, na medida em que pôde rever seus valores, métodos e práticas com a escolha do novo Papa. Uma das mudanças mais importantes que faria – fosse eu o Sr. Francisco – seria mudar o formato de catequese, e especialmente, dar mais preparo aos catequistas. Eu sou extremamente partidário da ideia de que uma aula pode mudar a vida de uma criança. Mas encerro a discussão, mesmo porque não sou católico, e por mim a instituição pode afundar inteira.

Passei por um período de ateísmo completo, o que foi realmente bom para mim. Era um momento em que eu confiava em mim mesmo e não tinha necessidade de alteridade alguma. Passei alguns anos sem questionar o ateísmo e não me arrependo, sinceramente. Várias das minhas conquistas não tiveram relação com Deus.

Contudo, eu acreditava de algum modo que avançávamos todos ao infinito, que conforme eu me dedicasse a algo – mas uma dedicação sincera, eu conseguiria alcançar o que desejasse depois de certo tempo. Era quase uma propaganda da Nike. Eu sei, parece uma crença ridícula, não é assim que a vida funciona e só um garoto mimado poderia pensar isso. Mas era assim que eu pensava, até recentemente.

E agora vem minha contribuição ao pensamento Allenesque. Nunca fui um grande fã de jogos. Joguei poucos ao longo da minha vida, e acho que só tive um video game. Eu realmente não gosto muito. Um dos poucos jogos que gostava de jogar na minha infância era o genial Tetris. Tem algumas semanas encontrei meu Game Boy antigo (verdade seja dita, era o do meu irmão), e o cartucho de Tetris. Obviamente fui jogar.

Ao mesmo tempo, estive lendo a Ilíada. Sou um grande fã de literatura, mas eu, assim como praticamente todos os amantes de literatura, fazemos um caminho todo confuso de leituras. Claro, isso é culpa de nossa formação escolar. Para nossas escolas – e ressalto que eu tenho que agradecer todos os dias por ter estudado em uma decente – o que há de mais clássico em literatura é o período que viemos a chamar de Realismo. Os estudos sobre períodos anteriores é extremamente superficial e vemos apenas como pitoresco. Grego e latim são desprezados, e grandes mestres como Homero – ou mesmo Shakespeare – são completamente esquecidos.

Meu caminho natural, assim como de muitos outros jovens, foi começar pelos realistas. Assim, logo com treze ou quatorze anos li todos grandes russos, pulei pro Realismo mágico de García Marquez e li algumas outras coisas. Ainda com quatorze anos comecei a ler Ulisses, só pelo desafio que se apresentava. Conforme fui evoluindo na literatura li outras coisas como Thomas Mann, Guimarães Rosa, Huxley ou Virginia Woolf, e ultimamente só estive lendo literatura moderna. Como exceção, li quase todo Shakespeare. Mas nunca havia lido nenhum clássico. Nenhum Homero, nenhum Dante.

E esses dois fatos, Tetris e Ilíada, me fizeram pensar na forma em que estou pensando em Deus nesses dias. Minha formação católica sempre me fez pensar que se existisse algum Deus, era um Deus redentor, que surge para nos salvar e só quer o nosso bem. É um Deus que atende seus pedidos e ânsias e perdoa todas nossas falhas. Creio que nunca havia pensado fora da caixa sobre esse assunto.

Tetris, como bom jogo arcade, não tem final exceto a derrota. A vitória do jogador é persistir o máximo de tempo fazendo o melhor desempenho possível. Ao mesmo tempo um computador sádico distribui peças de maneira perfeita pra te testar. Na teoria, a queda das peças é aleatória, mas na prática, todo jogador de Tetris sabe que o computador põe à prova sua capacidade de segurar o tranco. E ainda, conforme o jogo avança, as peças caem mais e mais rápido.

A Ilíada, por outro lado, apresenta a história de humanos guerreiros que apelam aos deuses, e divindades que só se diferenciam dos humanos pela imortalidade e alguns poderes especiais. Afrodite é ferida por Diomedes e salva Páris de Menelau. Zeus é enganado por Hera, que tem por intento ajudar os gregos. A falta de uma oferenda faz qualquer deus ficar ressentido com o humano em questão e até o prejudique. Os deuses, aliás, têm até papel de mediador quando Príamo se dirige a Aquiles para recuperar o cadáver de Heitor. E ainda uma outra característica, a personificação. Diversos elementos da paisagem e sentimentos são transformados em deuses, como o rio-deus Escamandro, que luta contra Aquiles, ou o deus Sono – que como o nome sugere, traz sono às pessoas.

São duas formas diferentes de pensar em Deus e no destino, Tetris e a Ilíada, e talvez esse texto esteja soando um pouco louco. Mas parando pra pensar nessa ótica, vemos duas concepções de transcendente que divergem completamente da tradição cristã que é dominante no Brasil e basicamente no mundo ocidental.

A vida segundo Tetris nada mais seria que organizar melhor os recursos e oportunidades que são distribuídas do céu por um ser superior. Conforme o tempo passa fica mais difícil aproveitá-los, e eventualmente, por mais cuidadoso que seja, você vai cometer um deslize que afeta a construção inteira, o que te leva mais perto do fim. De uma forma ou de outra, o desfecho é igual. Tudo o que resta é a glória de ter seu nome entre os recordistas. Mas mesmo o maior recordista foi derrotado por aquele “Deus” que joga as peças do alto. Aliás, forçando a barra, você perde o jogo quando chega mais perto da divindade sorteadora de recursos.

E por outro lado, os deuses da Ilíada são vaidosos, vãos, e não afetam em nada o destino após a morte. Independente de que regra moral sigam, todos mortais acabam no Hades. Cada mortal tinha um deus específico protetor. Por isso, os agrados aos deuses visavam apenas a benefícios materiais terrenos, e ao mesmo tempo, a falta para um dos deuses era digna de punição. Para os deuses, os mortais eram apenas joguetes para matar o tédio no Olimpo. Para os antigos gregos, a única maneira de se imortalizar era através de feitos heroicos que seriam lembrados para sempre no mundo dos mortais. É por essa razão que Aquiles resolve lutar ainda que saiba que esteja destinado a morrer. E numa pequena metáfora, é um pouco como o recorde gravado no jogo de Tetris. Aquiles era o maior dos Aqueus, ou o maior recordista de Tetris.

Tudo que escrevi até agora não tem nada a ver com qualquer crença pessoal. Não é que eu vá começar a matar bois para Zeus. São apenas coisas que me fizeram pensar em como a visão de uma divindade pode ser completamente diferente da que estamos acostumados. Nas religiões afro-brasileiras, por exemplo, a transcendência se aproxima muito mais da visão grega – ainda que de maneira completamente diferente – do que de um Deus cristão que te julga por suas faltas, mas que perdoa seus pecados e distribui bênçãos na sua vida.

Hoje me considero um agnóstico. Não penso mais que tudo seja possível, Mais precisamente, gosto muito da visão de Pascal sobre a aposta na crença em Deus, mas sinceramente, não sei qual Deus existe – considerando sua existência. Talvez seja um Deus que te dê forças em horas de dificuldade, talvez seja um Deus ao qual sejam necessárias oferendas e agrados, talvez seja um Deus indiferente. Não temos como saber. Mas jogar Tetris e ler a Ilíada me fizeram pensar nas diferentes formas que a humanidade enxergou e enxerga o contato com o transcendente.

Gostaria que meus leitores compartilhassem suas visões a esse respeito, ou visões ainda diferentes de outras religiões e grupos históricos. E claro, todo debate é incentivado aqui.

L’Esprit du Temps, by M. – 8199

The Curious Case of Benjamin Button, by F. Scott Fitzgerald – 9129

Tauromaquia

As touradas continuam vivas. Atacadas, porém vivas. Ao menos na Espanha e na França, onde tive a oportunidade de assistir a espetáculos tauromáquicos, as touradas vão muito além de serem apenas armadilhas para turistas. Milhares de locais se aglomeram nas plazas de toros para ver seus ídolos, os toreros, entrarem num duelo de vida ou morte (na teoria) contra o touro.

Por seu caráter selvagem, são muito atacadas pelas associações de direitos dos animais, e não são bem vistas pelo mundo ocidental de maneira geral.  De fato, nem dentro da Espanha as touradas são consenso. A Catalunha barrou as touradas de seu território, e esse ano ocorreu a última tourada da Plaza de Toros Monumental, em Barcelona. Em geral a população mais jovem é contra. A consequência natural é que no futuro elas acabariam por falta de público, o que poderia levar a uma proibição. Mas por enquanto estão muito vivas.

Os defensores afirmam que o touro de lidia é muito melhor tratado que o gado de corte, e que mesmo seus momentos finais são melhores que o abatedouro. Não que seja motivo convincente para a defesa (afinal, menos pior também é ruim), mas ver uma tourada, que na visão de seus defensores é melhor que o abate, realmente me fez pensar na relação com o consumo de carne.

Pessoalmente sou contra touradas. Não há motivos para continuar existindo. É o mais próximo que temos dos gladiadores romanos, e com certeza evoluímos como sociedade. Mais do que isso, as touradas são financiadas com dinheiro público. Não é um espetáculo que se sustenta sozinho, e toda a cadeia tauromáquica, desde as ganaderías até os heróis, toreros, são sustentados pelo contribuinte espanhol. Se eu fosse um cidadão espanhol, independente da crise, não gostaria de ver o meu dinheiro sendo gasto com toros. Bom, na realidade a Espanha ainda tem algumas preciosidades, como a monarquia, que em si não precisariam existir.

Num momento em que austeridade é palavra de ordem, o gasto com touradas realmente me parece supérfluo. Mas, mais uma vez, eu sou brasileiro, e não espanhol. Um espanhol defensor de touradas afirmaria que esse é um gasto para manter um patrimônio cultural, e seria tão importante quanto gastos em museus ou óperas, que também não conseguem se manter comercialmente.

Contudo, não se pode negar o motivo da existência de touradas. Os espetáculos taurinos remontam a uma época em que a natureza ainda era selvagem, inexplorada. Uma natureza que dava medo.

Meu pai nasceu em uma cidadezinha pequena, no Sul do Brasil. Cresceu nessa cidade, povoada por colonos italianos que detêm pequenas porções de terra. Ainda hoje, nessa região, há vários hectares de mata atlântica nativa, intocada. E meu pai se lembra, de quando era criança, do dia que a última onça foi caçada na região. Era uma onça grande, que assustava os lavradores em seu ofício. No dia em que foi morta, os “heróis” desfilaram com ela pela cidade, para alegria de todos, que podiam ficar mais seguros. Isso deve ter sido no final dos anos 60.

Hoje, mesmo com a caça abolida, meus tios que ainda trabalham no campo sabem bem o risco que significa um porco do mato. E eles sabem muito bem o perigo que um touro solto no pasto representa. Acho que todo mundo que trabalha no campo tem alguma história de correr de touro, para não ser chifrado. Nunca fui perseguido por um touro, contudo, só de tentar fazer carinho numa vaca presa para ordenha, vi o quanto esses animais podem ser ariscos. Não que interfira no argumento, mas como curiosidade, nenhum de meus tios apoia a tourada.

De novo, isso não é motivo para que uma festa que envolva a morte do touro continue existindo. Continuo sendo um defensor de seu fim, e aplaudo o exemplo de Barcelona. Mas me faz pensar em alguns aspectos.

Primeiramente, em como nossa civilização urbana ocidental foge da visão da morte. Enquanto nossos antepassados se dedicavam a ir toda semana à igreja para expiar seus pecados, pensando no pós-vida, nós guardamos nossos domingos a ir correr no parque. Nossos antepassados criavam a própria comida, e matavam seus bois e galinhas para ter carne.

Uma tourada para algum antepassado não tão distante – talvez seu tataravô – não seria nada excepcional (lembrando-se também que seus antepassados matavam bois a facadas). Possivelmente ele juntaria a família e assistiria ao espetáculo. E torceria pelo toureiro, sem maiores implicações. Inclusive já tivemos touradas no Brasil, que foram abolidas por Vargas.

Não fui atrás de literatura (e nem vou), mas não sei de quando data a primeira crítica à tauromaquia. Hemingway – ele mesmo um aficionado – já citava o desprezo de alguns de seus contemporâneos (todos de criação urbana) aos espetáculos taurinos. Mas claro, o repúdio à tauromaquia como opinião geral não deve datar mais de quarenta anos.

Evoluímos, claro, e conseguimos nos manter distantes dos aspectos mais cruéis da sobrevivência. A invenção de frigoríficos foi uma revolução para o mercado urbano, com falta de espaço para criar gado. E isso obviamente é muito bom. Não temos problemas em conservar comida, não precisamos aproveitar o boi inteiro e apenas selecionamos as partes que nos interessam para consumo – o que torna a carne e o processo produtivo mais barato.

Claro que por outro lado, deixamos de ter a morte ao nosso lado. Isso explica ao menos parcialmente o motivo da paz nas sociedades urbanizadas nos últimos cinquenta anos. Paz essa que possibilitou a criação de entidades como a União Europeia.

Pode parecer contraditório, muitas pessoas acreditam que nunca vivemos em tanta guerra. Talvez em termos absolutos, nunca tantas pessoas morreram em guerra, especialmente as de caráter interno. Abrimos o jornal e vemos notícias da Síria, do Mali. Fora a Somália que não existe como Estado há cerca de vinte anos.

Mas se olharmos relativamente, nunca estivemos tão em paz. Primeiramente, a guerra já é identificada como algo ruim e utilizado apenas em situações extremas. Ou vocês duvidam que cem anos atrás a Coreia do Norte e o Irã já teriam iniciado uma guerra?

Em outro ponto, a dose de crueldade da humanidade diminuiu drasticamente. A pena de morte foi abolida na maior parte das sociedades urbanizadas ocidentais (sendo os Estados Unidos a grande exceção). Para servir de exemplo, uma diversão típica do Renascimento e Idade Moderna era torturar gatos. A guilhotina foi um instrumento usado especialmente no chamado Século das Luzes. E são quase unanimemente considerados incabíveis atualmente, como são consideradas incabíveis pela sociedade urbana ocidental a diversão de alguns chineses em atirar cabras e cachorros vivos para leões em zoológicos.

E nesse ponto entra a tourada. A tourada nada mais é que um dos resquícios da sociedade rural, acostumada à morte, com guerras e saques constantes – a sociedade que criava e matava sua própria carne. A extinção dessa sociedade no continente europeu não é um evento de outras eras.

Há setenta anos o continente europeu passava por sua maior guerra, e isso significa que muitas pessoas vivenciaram esse período, ou ao menos são filhos de cidadãos que sabem (ou sabiam) muito bem o que significava pegar fila para o pão – escasso devido os conflitos. Anciãos que ainda se lembram de serem afastados de sua família para lutar – talvez morrer – por uma pátria que muitas vezes nem era a sua.

E essa linha de pensamento oriunda dos tempos rurais, apesar de ter sido extinta de maneira hegemônica no continente europeu – ou extrapolando, para toda sociedade ocidental urbanizada, ainda se mantém viva e de maneira ativa em pequenos fragmentos.

Eu, como filho de meu tempo e sociedade, partilho da visão urbana ocidental, de que a crueldade não deveria ser incentivada como forma de diversão. E nem como forma de punição. E nem de forma alguma, na realidade.

O peso do relativismo cultural é muito grande em algumas críticas. Não podemos julgar outra cultura com os valores que nossa cultura considera importantes e invioláveis, se relativizarmos. Esse argumento serve para encobrir absurdos como a existência de homens-bomba, ou a imposição de véus para mulheres em alguns países islâmicos. Claro que ninguém é louco de defender, sob nenhum argumento, a mutilação genital de mulheres na África ou a execução de homossexuais.

Nesse sentido, não poderíamos julgar o público das touradas. Eles fariam parte de um background cultural diferente da sociedade urbanizada espanhola, por exemplo. Não à toa, as touradas estão sendo exportadas para a China, que tem uma formação cultural completamente distinta da nossa.

Pessoalmente, não sou fã desse argumento, em nenhum aspecto. Alguns valores são para mim universais, como o respeito à vida – humana ou não, respeito às liberdades individuais, e direito de liberdade de pensamento e expressão, por exemplo.

Esse resquício da sociedade ruralizada que corresponde às touradas deveria ter sido extinto há muito tempo. Algumas soluções intermediárias (que não satisfariam os aficionados) são possíveis, como as touradas portuguesas em que não se mata o touro e tem o objetivo apenas de pular sobre o animal – nervoso por natureza.

A extinção desse espetáculo – ao menos nas sociedades urbanizadas da Europa e América Latina, é visível e tem prazo mais ou menos certo. Em duas ou três gerações espero que não mais vivenciemos os gládios com animais. Contudo, não estou seguro de seu fim em paradas mais distantes, que acabaram de iniciar a tradição. Aplaudo o exemplo de Barcelona, que transformou uma de suas antigas arenas num belíssimo shopping center, que mescla a arquitetura típica desses estádios com toques  de modernidade. Um verdadeiro ritual de passagem da sociedade rural do passado para a urbanização organizada.

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L’Esprit du Temps, by M. – 6643

The Curious Case of Benjamin Button, by F. Scott Fitzgerald – 9129

Efeitos colaterais de Neymar Jr.

Não sou fã de Neymar Jr. Qualquer pessoa que me conhece sabe que não aprecio o estilo do jogador, mas muito mais do que isso, não gosto da maneira que ele se porta e da repercussão de alguns de seus atos na sociedade. Por outro lado, já afirmei em meu post inaugural que um dos meus pontos fracos é esporte. Por isso não quero que este seja um texto sobre esportes. Não pretendo aqui avaliar o rendimento do jogador, ainda que esteja extremamente aquém dos dois maiores nomes do futebol atual – Messi e Cristiano Ronaldo – isso com todas as ressalvas feitas aos diferentes estilos e campos em que jogam os craques e Neymar.

Escrevo esse texto logo após assistir à entrevista do atacante com Jô Soares. Pessoalmente, considero que um teste para mostrar o quão interessante é uma pessoa é a habilidade de fazer o Jô calar a boca. E claro, isso está intimamente ligado com a capacidade de articulação.

E como esperado, praticamente só o Jô Soares falou. Neymar praticamente só ria a cada pergunta. Aliás, digo mais, o Bira em sua pequena intervenção falou mais que o jogador. Com certeza se articulou melhor. Não vou ser nem um pouco disfêmico ao afirmar que meu primo de onze anos renderia uma entrevista melhor sobre futebol. Praticamente a única afirmação completa dita por Neymar confirmou apenas o que todos sabemos: que ele pipoca. Mas pelo menos ele deu um motivo, e acredito que essa foi sua única construção argumentativa em toda a entrevista.

Fora o encontro com o Jô, não gosto da história do jogador per se. Neymar Jr. segue o sonho frustrado de ser estrela do futebol de seu pai, que é quem administra toda a carreira e patrimônio do boleiro. Eu não simpatizo com quem segue os sonhos dos pais sem pensar a respeito, como aqueles casos de famílias de advogados ou médicos, muito tradicionais na classe média alta. Eu sempre penso que ou a pessoa é muito infeliz por não ter seguido outra carreira ou é simplesmente passiva ao extremo para aceitar o destino criado por outros, e nem pensa a respeito. Em exceção, eu também conheço pessoas que apesar de seguirem o ramo escolhido pela família, realmente possuem a vocação.

Porém, infelizmente, e eu corro o risco de estar sendo injusto com o rapaz, Neymar não é uma exceção. Ele aparenta ser um daqueles jovens tapados que simplesmente seguem o plano que seus pais lhe impuseram, em troca de conforto material e de evitar conflitos. Poderiam argumentar que eu estou equivocado, afinal, como poderia ele jogar tanto (para padrões do futebol brasileiro, ressalto) sem ter vocação? Em minha opinião, Neymar apenas se acostumou com seu plano e treinou muito com especialistas, fazendo estágio no Real Madrid ainda bem novo. Talvez com sua genética pudesse ser um bailarino do Bolshoi, quem sabe.

Mas claro, o mais importante para mim sobre sua carreira é o marketing. Com vinte e um anos o jogador tem marca própria e fundação, e é impossível fugir de seu penteado horrível nos anúncios publicitários e exposição em periódicos. Eu não tenho acesso a dados estatísticos, mas tenho certeza que com essa idade craques como Ronaldo, Romário ou Zidane não tinham nem metade da exposição que tem Neymar.

E é curioso que as duas características que citei aqui sobre o jogador – a falta de vontade própria e o marketing – aliam-se em uma decisão que Neymar pai tomou: a de manter seu filho no futebol nacional, por ora, ao menos. Ao deixar o jogador no Santos, Neymar pai capitaliza muito em torno do marketing interno. Em terras nacionais, o atacante é rei. E isso obviamente o torna mais cobiçado para o mercado externo. E por outro lado, isso só demonstra uma vez mais a falta de vontade de Neymar Jr. Sem definição, sem objetivos, o jogador apenas flana em sua carreira – bem sucedida de uma maneira ou de outra. Mais uma vez de forma pessoal, eu gostaria de ter um craque com caráter, com atitude e ambição. Que soubesse o que quer conquistar, quantos gols quer fazer. Nesse sentido Barcos ou Guerrero são mais craques que Neymar.

E eu nem quero fazer maiores elaborações sobre o fato de Neymar ter popularizado a música do Tchu Tcha, que é apenas mais um sintoma dessa passividade do jogador. Além de ter sido um dos maiores gestos de mau gosto da história do futebol. E olha que o futebol em geral é bem escasso de bom gosto.

Não gosto de extrapolar ou criar um cenário apocalíptico, mas sinto que a atitude de Neymar é a que melhor representa o zeitgeist (ou pra homenagear o nome de meu blog, l’esprit du temps) da sociedade brasileira.

Não é necessário argumentar quando o desemprego é virtualmente inexistente, quando há mais vagas do que mão-de-obra. Podemos dispensar o exercício da lógica enquanto o dinheiro entra e não dá sinais de parar. E isso na verdade é muito bom, a oferta ampla de empregos é o sonho de qualquer sociedade (e de qualquer governante). Se há dinheiro para comprar iates e ir a baladas caras, pra quê questionar?

Mas isso traz também alguns inconvenientes. Por exemplo, o questionamento do crescimento pífio do PIB brasileiro foi quase nulo pela população. Não vi ninguém preocupado com isso, ou em como essa quase estagnação poderia significar uma redução dos postos de trabalho, e quem sabe até demissões. Ninguém anda muito preocupado com a inflação, que está em níveis assustadores para qualquer país sério. Nem eu, na verdade.

Não, isso não é culpa de Neymar, ainda que ele seja um dos sintomas desse desprezo da sociedade brasileira pelo questionamento. E friso, eu não estou afirmando que estamos decaindo, muito pelo contrário. A condição de vida do brasileiro nunca esteve melhor. Mas infelizmente, o gosto pela crítica e argumentação diminuiu e muito.

Gostaria apenas de ressaltar outro detalhe: a minha crítica é diversa do famoso país do carnaval e futebol. Os dois espetáculos existem em conjunto no Brasil desde o começo do século XX, e o país já foi mais contestador e mais ativo mesmo com as duas infames atividades de entretenimento. Aliás, os próprios carnaval e futebol já foram críticos diversas vezes ao longo de nossa história.

Eu acredito que o futebol muitas vezes dá indícios de como anda a sociedade. Outro exemplo? Cristiano Ronaldo, um jogador incontestavelmente superior a Neymar, só recebe reclamações no país em que atua, e mesmo em seu país de origem. E com uma capacidade argumentativa inúmeras vezes maior que o atacante santista. Curiosamente são países em crise, com desemprego recorde, em que a população se manifesta de uma maneira que não era vista há trinta anos. Não quero criar nenhuma teoria, mas esse é um exemplo que se aplica. Cristiano Ronaldo nunca sentaria num sofá de um talk show e ficaria apenas dando risada. Provavelmente iria se defender de ataques vindos do apresentador e da plateia. Mesmo tendo metas muito claras, como ser conquistar a bola de ouro de seu rival, Messi.

Talvez Neymar vá a Europa e brilhe, possivelmente irá para lá e perderá seu status de estrela maior em alguns anos, como aconteceu com Robinho e outros tantos. Talvez se mantenha como rei do futebol nacional no Santos. Nada disso invalida sua completa falta de capacidade argumentativa e a devoção cega de alguns de seus fãs que não conseguem enxergar um pouco além.

P.S.: Apenas de forma jocosa: Neymar é tão ruim que nem o Word reconhece seu nome como palavra da Língua Portuguesa.

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The Curious Case of Benjamin Button, by F. Scott Fitzgerald – 9129

Post Inaugural

Decidi escrever um blog. Como toda inauguração de blog, meu objetivo no primeiro texto é detalhar minhas motivações e gerenciar as expectativas dos meus leitores. Como se vê pelo meu início, esse não é um blog inovador ou revolucionário. Vai ter a estrutura conhecida, padrão. Eu escrevo, posto com uma regularidade que será cada vez menor até eu desistir de vez, e vocês comentam.

Já mantive outros blogs anteriormente, nenhum deles com muito sucesso, mas claro, eu também só escrevia cretinices e a divulgação era basicamente minha família e alguns amigos. Não acredito que esse será diferente, mas é de graça, então por que não tentar.

Começo explicando meus motivos para escrever. Não acredito naquele ditado de que você deve ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Mesmo porque, as pessoas que acreditam nesse ditado nunca o cumprem. Nem a parte mais fácil, que é plantar uma árvore, eles fazem.

Vamos supor que uns cem milhões de pessoas acreditem nesse ditado. Se todas elas decidissem cumpri-lo, começando pela tarefa mais fácil (podendo desistir depois), teríamos cem milhões de árvores a mais.

Num chute por baixo, uma conta de padaria, eu estimei que a Amazônia possui cerca de um bilhão de árvores. Nada mal, ter um 10% a mais de Amazônia. Acho que esse volume seria suficiente para dobrar a Mata Atlântica.

O segundo problema com o ditado é o último item da lista. Escrever um livro. Vamos supor que um sujeito crente na necessidade desse ditado para a completude de uma vida perfeita escreva e publique seu livro. Para se fazer uma tonelada de papel, são necessárias vinte árvores. Coloquemos um livro que pese duzentos gramas. Para uma tiragem de mil livros seriam necessárias quatro árvores. Nosso amigo do exemplo só plantou uma árvore. As outras três ele derrubou de colegas que desistiram antes de escrever um livro ou ter filhos.

E claro, eu nem considero o número de árvores que nosso amigo da vida completa suprema vai gastar em seu ensejo de ter um filho. Mas nem sei por que estou falando sobre árvores. Desse modo, poderiam até pensar que eu sou ecologista. Eu sinceramente não me importo com elas.

Não acredito nesse ditado, enfim. Não me lembro de ter plantado uma árvore – não me oporia a plantar uma, todavia – e não me vejo tendo um filho no futuro. Mas gostaria de algum dia ter um livro meu publicado, matando o número de árvores que for.

Não tenho a pretensão de trabalhar como escritor. Vou arrumar um emprego comum, ganhar meu dinheiro e quem sabe ficar rico um dia. Mas sou um amante de literatura, e eu falo muito mais do que penso, e talvez se eu começasse escrever, pudesse sair alguma coisa boa.

Contudo – ao contrário da crença popular e dos manuais de escrita – escrever não consiste em apenas sentar e soltar palavras aleatórias. Eu me lembro de um conselho de um manual de escrita (sim, eu já li alguns deles), afirmando que se você se dedicar a escrever mil palavras por dia, no final do ano vai ter 365000 palavras, confortavelmente distribuídas em seis livros de tamanho curto.

Sobre o que esses livros vão versar, eu não posso nem imaginar. É só sentar e escrever mil palavras por dia. Verbetes do dicionário randomicamente distribuídos, num romance dadaísta, talvez fossem válidos para o escritor do manual.

Em ressalva minha, apesar desses conselhos inúteis dos manuais de escrita, eu acredito sinceramente que escrever leva a escrever, de forma que um blog poderia ser um bom pontapé inicial para chegar a desenvolver um enredo com maior profundidade.

Isso me leva ao segundo objetivo desse texto, gerenciar as expectativas de vocês, leitores. Não, esse não vai ser um blog sobre escrever. Eu já estou bem cansado de escritores que escrevem sobre escrever, culpa da geração beat. Não é que eu não goste dos beats, mas Machado de Assis simplesmente sentava a bunda na cadeira e escrevia, assim como Dostoievski ou Balzac.

Mas estou cansado de romances sobre escrever e afins. Claro, eu ainda assisto a filmes do Woody Allen regularmente, leio Fante e Hemingway. Sinceramente os prefiro a qualquer Machado de Assis.

O blog não vai versar sobre escrever, isso foi dito. Sobre o que eu escreveria, então? De maneira simples, eu não sei. Como eu falei no começo desse post, esse não é um blog revolucionário, e como todo blogueiro amador, eu não sou especialista em nada, nem mesmo em minha própria vida.

Quando eu sentir vontade de escrever, sobre o assunto que for, eu sento e escrevo – talvez verbetes do dicionário, vá saber. Claro, quanto mais reação eu tiver de leitores, mais motivado ficarei a escrever sobre o assunto comentado. E claro, se eu insistir em escrever sobre esportes, por exemplo, que é uma matéria que não entendo nada, pouco a pouco vocês desistirão de mim com toda razão do mundo. Basicamente, é a regra de oferta e demanda.

Não escrevi minhas mil palavras, mas cheguei perto. Não vou escrever todo dia, tenho toda uma vida pra levar. Mas prometo me dedicar a esse blog com a mesma empolgação de vocês leitores, por ele.

Word counting:

L’Esprit du Temps – 860

The Bet, by Anton Chekhov – 2871