Não vai ter Maracanaço!

Escrevo no dia 3 de julho de 2014, alguns dias antes da final da Copa do Mundo de 2014. A Copa das Copas. Quase todas as seleções apresentaram um futebol lindo e gols espetaculares foram marcados. Quase. E isso é o que explica o porvir de meu texto. Não vai ter Maracanaço. Mesmo que o Brasil perca de 4 a 1 para a Argentina no dia 13, não vai ter Maracanaço. Por dois motivos muito simples.

O primeiro é a própria Seleção brasileira. A Seleção não cativa os torcedores desde o começo da Copa, e não vejo como começaria a cativar agora. Os brasileiros parecem todos torcedores não praticantes. Todos torcem pelo Brasil, mas ninguém se importa o suficiente. Muitos gritos durante o jogo e poucas crianças com insônia pensando na escalação.

Vários são os motivos dessa Seleção alheia ao torcedor. O primeiro são os próprios jogadores, que não são muito carismáticos. A maioria nunca teve uma base de fãs muito grande, como Hulk ou como quase todo o banco de reservas. Criou-se um carismático David Luiz alguns meses antes da Copa, que não cola exceto nos torcedores mais ingênuos. E algumas das “estrelas” não estão produzindo, como os laterais Marcelo e Daniel Alves. Falta um Robinho no banco, pra alegrar as comemorações.

A Família Scolari, invenção do pentacampeonato, não existe. Falta um samba, sorrisos, alegria. Talvez isso se deva a mudanças na cobertura jornalística. Até 2002, pelo menos, havia uma presença mais próxima dos jogadores com a mídia. A Fátima Bernardes entrava no ônibus da Seleção, havia peculiaridades sobre os países sedes e os pedidos pitorescos da Seleção no hotel em que estavam hospedados.

O próprio Felipão perdeu carisma, também. Ele não parece mais ser aquele técnico levado pela fé, que motivava a equipe e dava bons conselhos. Cada dia mais ele parece um burocrata, e parece que não se importa tanto com os resultados como se importava em 2002.

O segundo motivo é o próprio futebol da Seleção. Normalmente, havia espaço para o individualismo, para grandes craques que pontuavam em todas as partidas. A Seleção de 2014 tem o mérito de ser um grande corpo, o que pode mesmo ajudar na conquista do título. Não há muito espaço para individualidades. Nem Neymar produz esse efeito, ainda que tenha sido decisivo em dois jogos. O resultado é um futebol chato. Não necessariamente mal jogado, mas muito chato.

Outras seleções se saem melhor nesse quesito. A seleção alemã é o primor: tem uma excelente equipe e excelentes jogadores que se destacam individualmente. Além do carisma que eles demonstram no Brasil, visitando equipes locais, aldeias indígenas, fazendo caminhadas na praia, distribuindo sorrisos e autógrafos.

A Holanda é outro caso. Sediada no Rio de Janeiro, é comum os jogadores irem à praia, tomarem água de coco, passarem a noite nas baladas cariocas. E, de fato, dependem quase exclusivamente da individualidade de alguns iluminados, como Robben, Van Persie ou o caçula Memphis Depay.

E praticamente toda seleção das oito restantes nas quartas de final têm mais carisma que a brasileira. A única exceção é a Bélgica. As outras, seja pelo fator zebra, como a Costa Rica, seja pelo desprendimento, como a Holanda, pelo belo futebol apresentado, como França e Colômbia, ou pelos talentos individuais, como a Argentina, superam o Brasil.

Além da Seleção brasileira e sua comparação com os pares da Copa, outro motivo é importante para a inexistência de um Maracanaço: a excelente organização do evento aqui no Brasil. Tudo o que nossa Seleção não cativa em campo, nós cativamos como povo para os visitantes e mesmo para os moradores locais.

Não creio que a eliminação do Brasil em alguma fase anterior, ou a derrota na final, derrubará o ânimo do brasileiro. Estamos contentes de receber a Copa, e já saímos vencedores por isso. Uma derrota, por mais que alguns gostassem que tivesse reflexos na vida política, não terá. A Copa já está vencida por ter sido um espetáculo, com vários gols e jogadas bonitas.

Não creio que haverá um novo Maracanaço. Primeiro porque mesmo com um futebol chato, a Seleção ainda pode levar o título. Além disso, mesmo a derrota não será uma lástima. Seja pela própria equipe, sem carisma e sem espaço para a individualidade, ou pelo sucesso do evento em si, que trouxe alegria aos brasileiros no campo e fora dele, com os estrangeiros lotando os bares e sendo figurões engraçados, e, talvez infelizmente, efêmeros.

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L’Esprit du Temps, by M. – 13.817

The Metamorphosis, by Franz Kafka – 21.810