Homenaje a Chavela Vargas

“La muerte es lo más hermoso del mundo, es así como una bailaora de flamenco, peluda y morena y además agresiva.” – Chavela Vargas (1919 – 2012)

Quisiera yo ahora un poema o una historieta que dijera a mí lo que dice Chavela Vargas. Aquella América o España tristes, que saben de su estado, y que te muestran, te asombran, hacen todo contigo al mismo tiempo, como un viaje psicodélico por paisajes áridos al sonido de una guitarra, una guitarra gitana, una guitarra ranchera. Y la voz de Chavela que te guía y te rasca, que te corta el corazón, y te hace llorar como un niño, un niño que no sabe por qué llora, pero llora y no quisiera nada más que su mamá, que le acariciara el pelo y le cantara – una otra vez como Chavela, como el espíritu de Chavela – y recitara las palabras ciertas aunque duras, que traerían paz. Y como un mantra que se repite por toda la humanidad, la voz de Chavela Vargas, las costumbres rurales y quizás un buen poema realista mágico nos dejan en paz. Las frases habladas por Chavela en el intervalo entre las canciones, las pequeñas lecciones de sabiduría. Y escuchamos, y lloramos, y nos sentimos en paz en un espectáculo de catarsis. Y no hay arrepentimientos.

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L’Esprit du Temps, by M. – 6839

The Curious Case of Benjamin Button, by F. Scott Fitzgerald – 9129

Tauromaquia

As touradas continuam vivas. Atacadas, porém vivas. Ao menos na Espanha e na França, onde tive a oportunidade de assistir a espetáculos tauromáquicos, as touradas vão muito além de serem apenas armadilhas para turistas. Milhares de locais se aglomeram nas plazas de toros para ver seus ídolos, os toreros, entrarem num duelo de vida ou morte (na teoria) contra o touro.

Por seu caráter selvagem, são muito atacadas pelas associações de direitos dos animais, e não são bem vistas pelo mundo ocidental de maneira geral.  De fato, nem dentro da Espanha as touradas são consenso. A Catalunha barrou as touradas de seu território, e esse ano ocorreu a última tourada da Plaza de Toros Monumental, em Barcelona. Em geral a população mais jovem é contra. A consequência natural é que no futuro elas acabariam por falta de público, o que poderia levar a uma proibição. Mas por enquanto estão muito vivas.

Os defensores afirmam que o touro de lidia é muito melhor tratado que o gado de corte, e que mesmo seus momentos finais são melhores que o abatedouro. Não que seja motivo convincente para a defesa (afinal, menos pior também é ruim), mas ver uma tourada, que na visão de seus defensores é melhor que o abate, realmente me fez pensar na relação com o consumo de carne.

Pessoalmente sou contra touradas. Não há motivos para continuar existindo. É o mais próximo que temos dos gladiadores romanos, e com certeza evoluímos como sociedade. Mais do que isso, as touradas são financiadas com dinheiro público. Não é um espetáculo que se sustenta sozinho, e toda a cadeia tauromáquica, desde as ganaderías até os heróis, toreros, são sustentados pelo contribuinte espanhol. Se eu fosse um cidadão espanhol, independente da crise, não gostaria de ver o meu dinheiro sendo gasto com toros. Bom, na realidade a Espanha ainda tem algumas preciosidades, como a monarquia, que em si não precisariam existir.

Num momento em que austeridade é palavra de ordem, o gasto com touradas realmente me parece supérfluo. Mas, mais uma vez, eu sou brasileiro, e não espanhol. Um espanhol defensor de touradas afirmaria que esse é um gasto para manter um patrimônio cultural, e seria tão importante quanto gastos em museus ou óperas, que também não conseguem se manter comercialmente.

Contudo, não se pode negar o motivo da existência de touradas. Os espetáculos taurinos remontam a uma época em que a natureza ainda era selvagem, inexplorada. Uma natureza que dava medo.

Meu pai nasceu em uma cidadezinha pequena, no Sul do Brasil. Cresceu nessa cidade, povoada por colonos italianos que detêm pequenas porções de terra. Ainda hoje, nessa região, há vários hectares de mata atlântica nativa, intocada. E meu pai se lembra, de quando era criança, do dia que a última onça foi caçada na região. Era uma onça grande, que assustava os lavradores em seu ofício. No dia em que foi morta, os “heróis” desfilaram com ela pela cidade, para alegria de todos, que podiam ficar mais seguros. Isso deve ter sido no final dos anos 60.

Hoje, mesmo com a caça abolida, meus tios que ainda trabalham no campo sabem bem o risco que significa um porco do mato. E eles sabem muito bem o perigo que um touro solto no pasto representa. Acho que todo mundo que trabalha no campo tem alguma história de correr de touro, para não ser chifrado. Nunca fui perseguido por um touro, contudo, só de tentar fazer carinho numa vaca presa para ordenha, vi o quanto esses animais podem ser ariscos. Não que interfira no argumento, mas como curiosidade, nenhum de meus tios apoia a tourada.

De novo, isso não é motivo para que uma festa que envolva a morte do touro continue existindo. Continuo sendo um defensor de seu fim, e aplaudo o exemplo de Barcelona. Mas me faz pensar em alguns aspectos.

Primeiramente, em como nossa civilização urbana ocidental foge da visão da morte. Enquanto nossos antepassados se dedicavam a ir toda semana à igreja para expiar seus pecados, pensando no pós-vida, nós guardamos nossos domingos a ir correr no parque. Nossos antepassados criavam a própria comida, e matavam seus bois e galinhas para ter carne.

Uma tourada para algum antepassado não tão distante – talvez seu tataravô – não seria nada excepcional (lembrando-se também que seus antepassados matavam bois a facadas). Possivelmente ele juntaria a família e assistiria ao espetáculo. E torceria pelo toureiro, sem maiores implicações. Inclusive já tivemos touradas no Brasil, que foram abolidas por Vargas.

Não fui atrás de literatura (e nem vou), mas não sei de quando data a primeira crítica à tauromaquia. Hemingway – ele mesmo um aficionado – já citava o desprezo de alguns de seus contemporâneos (todos de criação urbana) aos espetáculos taurinos. Mas claro, o repúdio à tauromaquia como opinião geral não deve datar mais de quarenta anos.

Evoluímos, claro, e conseguimos nos manter distantes dos aspectos mais cruéis da sobrevivência. A invenção de frigoríficos foi uma revolução para o mercado urbano, com falta de espaço para criar gado. E isso obviamente é muito bom. Não temos problemas em conservar comida, não precisamos aproveitar o boi inteiro e apenas selecionamos as partes que nos interessam para consumo – o que torna a carne e o processo produtivo mais barato.

Claro que por outro lado, deixamos de ter a morte ao nosso lado. Isso explica ao menos parcialmente o motivo da paz nas sociedades urbanizadas nos últimos cinquenta anos. Paz essa que possibilitou a criação de entidades como a União Europeia.

Pode parecer contraditório, muitas pessoas acreditam que nunca vivemos em tanta guerra. Talvez em termos absolutos, nunca tantas pessoas morreram em guerra, especialmente as de caráter interno. Abrimos o jornal e vemos notícias da Síria, do Mali. Fora a Somália que não existe como Estado há cerca de vinte anos.

Mas se olharmos relativamente, nunca estivemos tão em paz. Primeiramente, a guerra já é identificada como algo ruim e utilizado apenas em situações extremas. Ou vocês duvidam que cem anos atrás a Coreia do Norte e o Irã já teriam iniciado uma guerra?

Em outro ponto, a dose de crueldade da humanidade diminuiu drasticamente. A pena de morte foi abolida na maior parte das sociedades urbanizadas ocidentais (sendo os Estados Unidos a grande exceção). Para servir de exemplo, uma diversão típica do Renascimento e Idade Moderna era torturar gatos. A guilhotina foi um instrumento usado especialmente no chamado Século das Luzes. E são quase unanimemente considerados incabíveis atualmente, como são consideradas incabíveis pela sociedade urbana ocidental a diversão de alguns chineses em atirar cabras e cachorros vivos para leões em zoológicos.

E nesse ponto entra a tourada. A tourada nada mais é que um dos resquícios da sociedade rural, acostumada à morte, com guerras e saques constantes – a sociedade que criava e matava sua própria carne. A extinção dessa sociedade no continente europeu não é um evento de outras eras.

Há setenta anos o continente europeu passava por sua maior guerra, e isso significa que muitas pessoas vivenciaram esse período, ou ao menos são filhos de cidadãos que sabem (ou sabiam) muito bem o que significava pegar fila para o pão – escasso devido os conflitos. Anciãos que ainda se lembram de serem afastados de sua família para lutar – talvez morrer – por uma pátria que muitas vezes nem era a sua.

E essa linha de pensamento oriunda dos tempos rurais, apesar de ter sido extinta de maneira hegemônica no continente europeu – ou extrapolando, para toda sociedade ocidental urbanizada, ainda se mantém viva e de maneira ativa em pequenos fragmentos.

Eu, como filho de meu tempo e sociedade, partilho da visão urbana ocidental, de que a crueldade não deveria ser incentivada como forma de diversão. E nem como forma de punição. E nem de forma alguma, na realidade.

O peso do relativismo cultural é muito grande em algumas críticas. Não podemos julgar outra cultura com os valores que nossa cultura considera importantes e invioláveis, se relativizarmos. Esse argumento serve para encobrir absurdos como a existência de homens-bomba, ou a imposição de véus para mulheres em alguns países islâmicos. Claro que ninguém é louco de defender, sob nenhum argumento, a mutilação genital de mulheres na África ou a execução de homossexuais.

Nesse sentido, não poderíamos julgar o público das touradas. Eles fariam parte de um background cultural diferente da sociedade urbanizada espanhola, por exemplo. Não à toa, as touradas estão sendo exportadas para a China, que tem uma formação cultural completamente distinta da nossa.

Pessoalmente, não sou fã desse argumento, em nenhum aspecto. Alguns valores são para mim universais, como o respeito à vida – humana ou não, respeito às liberdades individuais, e direito de liberdade de pensamento e expressão, por exemplo.

Esse resquício da sociedade ruralizada que corresponde às touradas deveria ter sido extinto há muito tempo. Algumas soluções intermediárias (que não satisfariam os aficionados) são possíveis, como as touradas portuguesas em que não se mata o touro e tem o objetivo apenas de pular sobre o animal – nervoso por natureza.

A extinção desse espetáculo – ao menos nas sociedades urbanizadas da Europa e América Latina, é visível e tem prazo mais ou menos certo. Em duas ou três gerações espero que não mais vivenciemos os gládios com animais. Contudo, não estou seguro de seu fim em paradas mais distantes, que acabaram de iniciar a tradição. Aplaudo o exemplo de Barcelona, que transformou uma de suas antigas arenas num belíssimo shopping center, que mescla a arquitetura típica desses estádios com toques  de modernidade. Um verdadeiro ritual de passagem da sociedade rural do passado para a urbanização organizada.

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L’Esprit du Temps, by M. – 6643

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Efeitos colaterais de Neymar Jr.

Não sou fã de Neymar Jr. Qualquer pessoa que me conhece sabe que não aprecio o estilo do jogador, mas muito mais do que isso, não gosto da maneira que ele se porta e da repercussão de alguns de seus atos na sociedade. Por outro lado, já afirmei em meu post inaugural que um dos meus pontos fracos é esporte. Por isso não quero que este seja um texto sobre esportes. Não pretendo aqui avaliar o rendimento do jogador, ainda que esteja extremamente aquém dos dois maiores nomes do futebol atual – Messi e Cristiano Ronaldo – isso com todas as ressalvas feitas aos diferentes estilos e campos em que jogam os craques e Neymar.

Escrevo esse texto logo após assistir à entrevista do atacante com Jô Soares. Pessoalmente, considero que um teste para mostrar o quão interessante é uma pessoa é a habilidade de fazer o Jô calar a boca. E claro, isso está intimamente ligado com a capacidade de articulação.

E como esperado, praticamente só o Jô Soares falou. Neymar praticamente só ria a cada pergunta. Aliás, digo mais, o Bira em sua pequena intervenção falou mais que o jogador. Com certeza se articulou melhor. Não vou ser nem um pouco disfêmico ao afirmar que meu primo de onze anos renderia uma entrevista melhor sobre futebol. Praticamente a única afirmação completa dita por Neymar confirmou apenas o que todos sabemos: que ele pipoca. Mas pelo menos ele deu um motivo, e acredito que essa foi sua única construção argumentativa em toda a entrevista.

Fora o encontro com o Jô, não gosto da história do jogador per se. Neymar Jr. segue o sonho frustrado de ser estrela do futebol de seu pai, que é quem administra toda a carreira e patrimônio do boleiro. Eu não simpatizo com quem segue os sonhos dos pais sem pensar a respeito, como aqueles casos de famílias de advogados ou médicos, muito tradicionais na classe média alta. Eu sempre penso que ou a pessoa é muito infeliz por não ter seguido outra carreira ou é simplesmente passiva ao extremo para aceitar o destino criado por outros, e nem pensa a respeito. Em exceção, eu também conheço pessoas que apesar de seguirem o ramo escolhido pela família, realmente possuem a vocação.

Porém, infelizmente, e eu corro o risco de estar sendo injusto com o rapaz, Neymar não é uma exceção. Ele aparenta ser um daqueles jovens tapados que simplesmente seguem o plano que seus pais lhe impuseram, em troca de conforto material e de evitar conflitos. Poderiam argumentar que eu estou equivocado, afinal, como poderia ele jogar tanto (para padrões do futebol brasileiro, ressalto) sem ter vocação? Em minha opinião, Neymar apenas se acostumou com seu plano e treinou muito com especialistas, fazendo estágio no Real Madrid ainda bem novo. Talvez com sua genética pudesse ser um bailarino do Bolshoi, quem sabe.

Mas claro, o mais importante para mim sobre sua carreira é o marketing. Com vinte e um anos o jogador tem marca própria e fundação, e é impossível fugir de seu penteado horrível nos anúncios publicitários e exposição em periódicos. Eu não tenho acesso a dados estatísticos, mas tenho certeza que com essa idade craques como Ronaldo, Romário ou Zidane não tinham nem metade da exposição que tem Neymar.

E é curioso que as duas características que citei aqui sobre o jogador – a falta de vontade própria e o marketing – aliam-se em uma decisão que Neymar pai tomou: a de manter seu filho no futebol nacional, por ora, ao menos. Ao deixar o jogador no Santos, Neymar pai capitaliza muito em torno do marketing interno. Em terras nacionais, o atacante é rei. E isso obviamente o torna mais cobiçado para o mercado externo. E por outro lado, isso só demonstra uma vez mais a falta de vontade de Neymar Jr. Sem definição, sem objetivos, o jogador apenas flana em sua carreira – bem sucedida de uma maneira ou de outra. Mais uma vez de forma pessoal, eu gostaria de ter um craque com caráter, com atitude e ambição. Que soubesse o que quer conquistar, quantos gols quer fazer. Nesse sentido Barcos ou Guerrero são mais craques que Neymar.

E eu nem quero fazer maiores elaborações sobre o fato de Neymar ter popularizado a música do Tchu Tcha, que é apenas mais um sintoma dessa passividade do jogador. Além de ter sido um dos maiores gestos de mau gosto da história do futebol. E olha que o futebol em geral é bem escasso de bom gosto.

Não gosto de extrapolar ou criar um cenário apocalíptico, mas sinto que a atitude de Neymar é a que melhor representa o zeitgeist (ou pra homenagear o nome de meu blog, l’esprit du temps) da sociedade brasileira.

Não é necessário argumentar quando o desemprego é virtualmente inexistente, quando há mais vagas do que mão-de-obra. Podemos dispensar o exercício da lógica enquanto o dinheiro entra e não dá sinais de parar. E isso na verdade é muito bom, a oferta ampla de empregos é o sonho de qualquer sociedade (e de qualquer governante). Se há dinheiro para comprar iates e ir a baladas caras, pra quê questionar?

Mas isso traz também alguns inconvenientes. Por exemplo, o questionamento do crescimento pífio do PIB brasileiro foi quase nulo pela população. Não vi ninguém preocupado com isso, ou em como essa quase estagnação poderia significar uma redução dos postos de trabalho, e quem sabe até demissões. Ninguém anda muito preocupado com a inflação, que está em níveis assustadores para qualquer país sério. Nem eu, na verdade.

Não, isso não é culpa de Neymar, ainda que ele seja um dos sintomas desse desprezo da sociedade brasileira pelo questionamento. E friso, eu não estou afirmando que estamos decaindo, muito pelo contrário. A condição de vida do brasileiro nunca esteve melhor. Mas infelizmente, o gosto pela crítica e argumentação diminuiu e muito.

Gostaria apenas de ressaltar outro detalhe: a minha crítica é diversa do famoso país do carnaval e futebol. Os dois espetáculos existem em conjunto no Brasil desde o começo do século XX, e o país já foi mais contestador e mais ativo mesmo com as duas infames atividades de entretenimento. Aliás, os próprios carnaval e futebol já foram críticos diversas vezes ao longo de nossa história.

Eu acredito que o futebol muitas vezes dá indícios de como anda a sociedade. Outro exemplo? Cristiano Ronaldo, um jogador incontestavelmente superior a Neymar, só recebe reclamações no país em que atua, e mesmo em seu país de origem. E com uma capacidade argumentativa inúmeras vezes maior que o atacante santista. Curiosamente são países em crise, com desemprego recorde, em que a população se manifesta de uma maneira que não era vista há trinta anos. Não quero criar nenhuma teoria, mas esse é um exemplo que se aplica. Cristiano Ronaldo nunca sentaria num sofá de um talk show e ficaria apenas dando risada. Provavelmente iria se defender de ataques vindos do apresentador e da plateia. Mesmo tendo metas muito claras, como ser conquistar a bola de ouro de seu rival, Messi.

Talvez Neymar vá a Europa e brilhe, possivelmente irá para lá e perderá seu status de estrela maior em alguns anos, como aconteceu com Robinho e outros tantos. Talvez se mantenha como rei do futebol nacional no Santos. Nada disso invalida sua completa falta de capacidade argumentativa e a devoção cega de alguns de seus fãs que não conseguem enxergar um pouco além.

P.S.: Apenas de forma jocosa: Neymar é tão ruim que nem o Word reconhece seu nome como palavra da Língua Portuguesa.

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L’Esprit du Temps, by M. – 5053

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Woody Allen Reviews| #2 – Manhattan Murder Mystery

Os filmes do Woody Allen podem ser excelentes substitutos à ausência de seriados para assistir. Com um formato padrão de filmes curtos – que equivaleriam a dois episódios de uma série de drama – e piadas excelentes distribuídas ao longo da história, os longas de Allen são uma fantástica forma de entretenimento.

E não boto nisso nenhum demérito. Claro, a maioria dos filmes vai muito além, assim como várias séries também são mais do que puro passatempo (friso Mad Men). Mas foi assim que assisti a Manhattan Murder Mystery. Uma madrugada tediosa sem nenhuma vontade de ler ou fazer qualquer outra coisa. E aí escolhi aleatoriamente Manhattan Murder Mystery. O fato de ser o filme imediatamente anterior à Don’t Drink the Water é puramente incidental, mas pode me ajudar a escrever mais sobre a diferença de tom entre os dois.

Manhattan Murder Mystery é uma comédia policial. Não chega a ser uma sátira, há todo um enredo em torno do crime, mas obviamente o que mais toma a cena são os diálogos de Woody. Para descrever melhor, assim como Allen conseguiu unir humor e a forma de documentários em seus mockumentaries – sendo Take The Money And Run pioneiro nessa técnica, Manhattan Murder Mystery também mescla os gêneros policial e comédia. É diferente de Match Point, um drama policial em sua completude.

Ao contrário de Don’t Drink the Water, o enredo não tem nada de previsível, dando várias voltas até chegar a um desfecho digno de um romance noir. Woody Allen representa Woody Allen como sempre, mas dessa vez no papel de um editor renomado. Diane Keaton – que interpretou a musa dos relacionamentos quebrados em Annie Hall, volta depois de anos a atuar num longa do diretor e não decepciona.

A dupla trabalha de maneira fluida como nos velhos tempos de Annie Hall e Manhattan. Como curiosidade, Keaton atua nesse filme devido às tensões no relacionamento de Allen com Mia Farrow – já próximo de seu fim, com o diretor se relacionando com sua enteada de dezessete anos, Soon-Yi Previn.

Como um filme do Woody Allen não é um filme do Woody Allen sem pelo menos a sugestão de adultério, Alan Alda interpreta um escritor amigo do casal principal – Ted, que se envolve pouco a pouco com a personagem de Keaton. E do lado da personagem de Allen se aproxima a escritora Marcia Fox, interpretada por Anjelica Huston.

O enredo começa como um típico longa do diretor, mostrando um casal que faz parte da elite intelectual nova-iorquina, frequentando ópera e afins, os Liptons, Larry e Carol. Como comum aos habitantes de Nova York, o casal não conhece seus vizinhos, até que cruzam com outro casal mais idoso no elevador, os House. Nesse encontro rápido, a vizinha oferece café aos Liptons, e Larry se entedia com o Sr. House, que insiste em mostrar a coleção de selos.

Alguns dias depois a sra. House morre de enfarto fulminante. Numa conversa de bar, os Liptons contam a história na mesa, o que em forma de brincadeira levanta suspeita de assassinato, orquestrado pelo viúvo, Sr. House. Contam para a paranoia o fato do Sr. House estar muito tranquilo e Carol ter encontrado uma urna funerária no apartamento de seu vizinho.

Ao longo da trama, Larry se mostra relutante em aceitar a tese da esposa, o que abre espaço para que Ted se aproxime e compartilhe a “investigação” com Carol. Eles criam mais intimidade, e planejam abrir um restaurante. Ao mesmo tempo, Larry conhece Marcia Fox, uma escritora sexy que tem conhecimentos em apostas de pôquer.

Percebendo o papel que Ted toma na vida de sua mulher, Larry arranja encontros entre seu amigo e Marcia. Contudo, conforme as investigações avançam, Larry é obrigado a assumir que o caso é mais do que simples paranoia de sua mulher, e que talvez um crime realmente tenha sido cometido. Quem ajuda a matar a charada é a escritora Marcia Fox, para ciúme de Carol, que acompanhava o caso desde o começo.

Paro aqui para não dar mais detalhes sobre o longa. Digo que é muito interessante, e que vale a ida à locadora. A produção é incomparavelmente superior à de Don’t Drink the Water, a trilha sonora agrada bastante, e o roteiro continua afiado como manda a assinatura do diretor. Garante boas gargalhadas, especialmente quando o personagem de Allen se intromete na investigação.

Como filme policial certamente não é referência, mas acredito que essa não foi a intenção de Woody. O roteiro trabalha com alguns dos elementos mais comuns ao gênero e inclusive cita outros clássicos do cinema e da literatura, como The Lady From Shanghai de Orson Welles e o ainda fresco (à época) Silence of the Lambs.

Uma das comédias mais finas de Allen, perde apenas para os clássicos que o imortalizaram como The Purple Rose of Cairo, e outros que sempre cito por aqui (Annie Hall, Manhattan). Foi um filme que me deu vontade de ver ou rever os longas mais sérios de Allen, Match Point por exemplo.

Não é um filme descartável, mas atendeu bem ao meu desejo de matar o tédio durante uma madrugada. Recomendo a todos que queiram apreciar Woody Allen em sua exata medida, mesmo durante um período um pouco apagado de sua carreira. Como comparação geral(que sempre gosto de fazer), é melhor que Don’t Drink the Water mas pior que Bullets Over Broadway – ainda a comédia que mais me fez rir em todos os tempos. Merece uma resenha, inclusive. Quem sabe não assisto de novo e escrevo.

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L’Esprit du Temps, by M. – 3812

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Woody Allen Reviews | #1 – Don’t Drink the Water

Um dos meus hobbies, afora escrever para esse blog, é assistir a filmes do Woody Allen nas horas vagas. Ainda não assisti a todos, mas acredito que eventualmente o farei. Nessa noite resolvi ver Don’t Drink The Water, de 1994, filmado para a televisão. Ao longo do filme tive vontade de escrever uma resenha aqui para o L’Esprit Du Temps, o que num pensamento com um toque de megalomania se transformou em uma série de resenhas sobre os longas de Allen que vier a ver.

Para explicar brevemente o formato dessa coluna, resenharei Woody Allen sem alguma ordem específica, cobrindo quase todos os filmes, conforme eu os veja. Não esperem aqui uma resenha de Annie Hall, Manhattan ou Midnight in Paris. Sobre esses filmes milhões de críticos especializados já discorreram e são obras-primas obrigatórias em um cânone universal de filmes.

Vou discorrer pouco sobre aspectos técnicos e curiosidades fora da tela. Caso você tenha interesse, recomendo fortemente o blog americano Every Woody Allen Movie, com maiores detalhes de todos os filmes do diretor. Basicamente darei minha opinião sobre o filme de uma forma comparativa a outras obras do mestre, minhas impressões e possíveis insights.

Don’t Drink The Water

Don’t Drink the Water é uma comédia escrita em 1966 para ser apresentada nos teatros da Broadway. Uma versão cinematográfica foi lançada três anos depois – sem a participação de Allen, que considerou o longa terrível. Em 1994 dirigiu uma versão da peça para a televisão.

Não recebeu muita verba e ainda é uma adaptação de peça. Isso explica o ar Sai de Baixo da comédia: um só cenário, a embaixada norte-americana em Moscou; poucos personagens, todos com alguma característica pitoresca; e algumas cenas de pastelão, que não desmerecem o filme em nenhuma medida, só o tornam mais palatável para a grande massa.

O longa narra a história de uma família judia de Nova Jersey, os Hollanders, que decidiram passar as férias na Europa – para desgosto do pai, Walter, interpretado por Allen, que repete várias vezes como ele preferia ter ido à Atlantic Beach – e acabam confundidos com espiões em Moscou após desviarem da rota do guia turístico, sendo obrigados a procurar abrigo na embaixada dos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo o embaixador norte-americano havia se ausentado por algumas semanas, e deixado no comando da embaixada o filho incompetente, Axel Magee. Toda a trama se desenvolve nas tentativas de fuga da família Hollander e o caráter irredutível de Walter, que não se adapta de nenhuma maneira às situações adversas. Ainda há uma relação afetiva entre o embaixador interino e a filha de Walter, Susan.

É uma história com um enredo simplista – pude prever o final nos primeiros quinze minutos. Nem por isso deixa de ser uma das melhores comédias de Allen que assisti. Apesar de não ter a genialidade de outros trabalhos, foi o filme do diretor em que mais ri depois de Bullets Over Broadway.

Quando os Hollanders perguntam sobre a duração de sua estada na embaixada, Axel responde que na mansão que abriga a sede diplomática vive um padre refugiado há seis anos. Descobre-se então que esse padre tem um hobby de cárcere, a mágica, ainda que ele seja terrível nos truques. Padre Drobney dá um toque de humor mais prosaico ao filme – chega ao ponto do pastelão, contrapondo com os diálogos de Allen, que apesar de muito mais pobres que as inteligentes linhas de Annie Hall, ainda são muito específicas para atingir o público global da televisão.

Walter Hollander e sua mulher aparentam não entender a gravidade de sua situação, já que discutem a maior parte do tempo o negócio de catering em Nova Jersey, as fofocas do bairro e da família, os inconvenientes da cozinha extremamente sofisticada da embaixada e seu chef neurótico, que se torna o maior inimigo de Walter. Nessa linha aparecem algumas das melhores falas de Allen, como essa (em tradução livre, como todas as traduções de trechos nesse blog):

Eu não posso assistir ao baseball, eu não posso ir ao teatro, e você sabe que eu fico perdido sem meu urologista”

O enredo também se desenvolve ao redor de Susan e sua relação com Axel. Conforme o tempo de cativeiro aumenta a garota se apaixona pelo diplomata, e rompe com seu noivo nos Estados Unidos – dermatologista, com especialidade em implantes de cabelo e considerado um bom futuro por Walter e Marion, sua mulher. A cena em que Susan revela aos pais que dispensou seu noivo para ficar com Axel é simplesmente uma das mais cômicas de toda carreira de Woody.

Walter argumenta quais seriam os motivos de Susan, ao que ela responde:

“Eu não estou apaixonada por ele”

                “O homem te comprou uma navalha elétrica cara, como você poderia não estar apaixonada por ele?”

A discussão segue, e a filha dá alguns outros motivos no diálogo com o pai:

“Ele não é romântico o suficiente”

                “Eu acho ele muito romântico!”

                “Não é você com quem ele anda de braços dados”

                “Então se ele estivesse de braços dados comigo, você se casaria com ele?”

Em suma, esse seria um Woody Allen típico, mas é muito mais leve que outras comédias do diretor. As atuações estão decentes, mas não há nenhum destaque individual. A produção é simples, e consta que todo o processo de criação do filme durou apenas duas semanas. É muito interessante pelas sátiras aos ideais dos pais da classe média no contexto de Guerra Fria.

E é isso que leva ao fato que apontei em outros pontos da resenha, esse é um dos mais divertido filmes de Allen, e o espectador não terá perdido seu tempo assistindo a ele. Não se destaca na extensa filmografia do diretor, mas com certeza garante um bom momento de humor inteligente. Gostaria de assistir a uma encenação da peça, para ver como os elementos são apresentados. Numa soma geral, é melhor que Vicky Cristina Barcelona, mas pior que Take The Money and Run.

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L’Esprit du Temps, by M. – 2901

The Curious Case of Benjamin Button, by F. Scott Fitzgerald – 9129

Descascador de grão-de-bico

Pedro entoava em sua mente o mantra Hare Krishna. Ao mesmo tempo fazia um trabalho que não necessitava ser feito caso algum programador tivesse planejado corretamente o software de distribuição de ações entre corretoras. O trabalho consistia em desmarcar uma casa, apertar a seta para a próxima, e confirmar quando saltasse a caixa de alerta. Desmarcar uma casa, apertar seta, confirmar quando saltasse. Era como descascar grãos-de-bico um a um para a salada do Natal, mas sem saber quando o fim estava chegando.

Antes de começar estimava quantas vezes teria que fazer isso. Um milhão de ações. Se estivessem distribuídas em lotes de duzentas, teria que repetir o processo cinco mil vezes. Quinze mil cliques. Desmarcar a casa, apertar a seta, confirmar. Tomando dois segundos por operação, seriam dez mil segundos, quase três horas. Obviamente a firma não deixou instalar um programa de repetição de cliques.

O mais aflitivo era não saber a funcionalidade dessa tarefa. Na verdade, nem as pessoas que lhe ordenavam fazer isso sabiam a utilidade. Era uma simples falha de sistema, que atualização após atualização ninguém se atrevia a resolver. O trabalho de Pedro em sua maior parte resumia-se a fazer coisas que não precisavam ser feitas.

Se consertassem todas essas falhas, Pedro poderia ser demitido. E a verdade é que mesmo não pensando muito nisso, essa perspectiva não lhe desagradava. Desmarcar a casa, apertar a seta, confirmar.

Para que isso não se tornasse seu mantra, Pedro repetia o hino Hare Krishna em sua mente. Nos primeiros dias de seu trabalho tentava rezar Ave-Marias – rosários e mais rosários de ações – mas se confundia no meio da oração, e perdia o ponto que estava. Ou pior, desmarcava a casa errada, tendo que voltar para corrigir.

Se Pedro fosse vegetariano, já poderia se considerar Hare Krishna. Sua rotina de transporte ao trabalho consistia em andar quinze minutos até o ônibus, mais meia hora de condução, pegar o metrô por dez estações, e subir em outro ônibus até a porta do trabalho. Tudo isso de roupa social. Quando encontrava lugar sentado, Pedro lia. Mas como isso era raridade – sendo o mais comum ficar espremido entre várias pessoas – Pedro cantava o Hare Krishna para si ao longo da viagem.

Chegava cedo, comia uma barra de cereal e tomava uma xícara de café, sentava-se à mesa e se preparava. Começava consertando gráficos que vinham errados de fábrica, depois fazia apresentações sobre a excelência do banco em negociação de ações. Escrevia um relatório e pedia o almoço.

Uma hora depois o almoço chegava a sua mesa, geralmente comia um hambúrguer com molho. Quase todos os dias nessa hora chegava o email de uma colega de trabalho que sentava no mesmo andar, mas que ele nunca havia conhecido pessoalmente.

Era um email muito simples, com poucas palavras, seguindo um modelo:

                                               Papel:BBDC4

                                               Tipo: Compra

                                               Quantidade: 127.000

                                               Cliente: X1458BZ31OP

E aí começava a jornada de trabalho Hare Krishna de Pedro. Acabava seu almoço com pouca pressa, sabendo o que lhe esperava, e de pequenos em pequenos lotes fazia o processo por algumas horas, olhando firmemente para um dos quatro monitores sobre sua mesa.

E durante esse processo chegavam outros emails com outras tarefas, algumas urgentes que faziam com que Pedro interrompesse seu mantra. Algumas relacionadas à distribuição de ações, o que levava Pedro mexer no programa e sair do layout de desmarcar casas.

Então completava seu dia, e rumava à faculdade em pleno horário de pico. Mais algumas horas da Consciência de Krishna. Queria se formar e virar gerente. Fazer basicamente as mesmas tarefas, mas ter alguém pra mandar e ganhar um salário melhor. Aplicaria uma parte na previdência privada e com sessenta anos se aposentaria – quem sabe entraria num acampamento Hare Krishna.

Ia para as aulas sobre assuntos distantes, com pouca ou nenhuma aplicação prática no negócio de desmarcar casas, e voltava para casa meia noite, dessa vez lendo textos para sua formação. Dormia e acordava no dia seguinte desperto para sua rotina espiritual de descascador de grão-de-bico.

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L’Esprit du Temps – 1903

The Bet, by Anton Chekhov – 2871

Paisagem hipnótica

Um deserto. Siga minha voz. Um deserto cujo oásis é Casablanca. Mantenha-se calmo, num deserto todas suas preocupações são menores. Preocupe-se em respirar. Casablanca está próxima. As dunas mudam de cor ao longo do dia. Brancas, laranjas, vermelhas, cinzas, azuis. Respire, siga minha voz ao longo da viagem. Caravanas de beduínos cruzam com nossos camelos e nós trocamos algumas palavras. Mantenha-se calmo.

Um deserto de neve. No caminho a Casablanca. A neve começa a cair do céu lentamente, como o maná dos deuses. Respire, siga minha voz. Veja como cai a neve pelo céu azul. Todas suas preocupações são menores. Casablanca está próxima. As dunas permanecem à sua frente, embranquecidas de neve. À noite não haverá mais neve.

Uma pedra esconde uma caverna. Um oásis no caminho do grande oásis. Mantenha-se calmo, a neve continua caindo. Respire, vamos adentrar a cova. Siga minha voz. Ouça o barulho da água correndo. Você sente frio, a caverna é inteira em gelo. Deite-se na caverna. Sinta-se confortável. Você não tem vontade de levantar. Respire e não se preocupe.

Veja a árvore. No meio da caverna ela cresce frondosa, uma oliveira antiga. Os troncos retorcidos. O rio segue a seu lado. Siga minha voz. Respire, ouça o barulho do rio. Você pode se controlar. Observe as estalactites de gelo. Veja como a água pinga no solo arenoso. É muito perigoso nos perdermos. Mantenha-se calmo.

Observe o fogo. Pouco a pouco a oliveira se queima, chamas calmas a consomem. Acalme-se. O fogo não vai lhe queimar. Siga meu comando, você não sente nenhuma vontade de levantar. Respire.  As chamas mudam de cor. Vermelhas, laranjas, amarelas, azuis, verdes. Mantenha-se calmo, observe as flamas até que toda a oliveira vire cinzas.

Atlas, o titã. No lugar da oliveira, veja Atlas. Ele não carrega nada em suas costas, as chamas destruíram o globo. Respire. Mantenha-se calmo. O globo não é necessário. Siga minha voz. A viagem ainda é longa. O titã está livre.

Quero que você se levante calmamente. Siga minha voz nesse momento. Vamos sair da caverna. Sinta a areia nos seus pés. Toque a areia, mexa sua mão. Mantenha-se calmo. Não há mais neve do lado de fora. O calor toma conta de você, começando por suas extremidades. Siga sua viagem. Casablanca está próxima.

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L’Esprit du Temps – 1238

The Bet, by Anton Chekhov – 2871