Meus centavos | A Espuma dos Dias, por Boris Vian

SPOILER ALERT – Essa resenha vai falar quem morreu e quem esteve sempre morto.

L’écume des jours veio a minha mão de maneira completamente aleatória. Olhava o site da editora francesa Le Livre de Poche e vi que o romance de Vian se encontrava entre os mais vendidos. Interessei-me, então, e comprei na Livraria Cultura a edição em francês. Eu não sabia completamente de que havia um filme lançado na França e pra ser estreado no Brasil. O que é muito idiota de minha parte, considerando que a capa do livro mostrava a Audrey Tautou.

Capa do filme, e por acaso capa da minha edição  duh!

Capa do filme, e por acaso capa da minha edição duh!

Comecei minha leitura sem nem imaginar sobre o que se tratava. A resenhinha atrás falava algo sobre o mundo do jazz de Ellington e uma paródia de Sartre, mas eu não podia imaginar sobre o que se tratava o enredo. Meu francês não é ainda fluente, então tomei um susto quando me deparei com situações como uma enguia que era atraída por pasta de dente de abacaxi, e depois preparada por Nicolas para o almoço.

Não sabia se Vian queria fazer alguma espécie de piada, ou se era só uma espécie de mundo louco. Logo a segunda hipótese prevaleceu, para meu alívio, e garantindo uma viagem especial por um mundo completamente peculiar. Ainda que abundem piadas ao longo do livro.

O enredo se foca na vida de Colin, um jovem rico que não precisa se preocupar em trabalhar, e seu amigo Chick – viciado no filósofo Jean Sol Partre (paródia clara e explícita de Sartre, amigo de Boris Vian) quase como se pode viciar em uma droga. Além deles, há o cozinheiro e companheiro Nicolas.

Após Chick conhecer uma garota legal, Alise – sobrinha de Nicolas, Colin decide se apaixonar por alguém. Conhece então Chloé, que tem o mesmo nome de uma de suas músicas favoritas de Duke Ellington. Ao mesmo tempo, dá um quarto de sua fortuna para seu amigo Chick para que ele se case com Alise. O dinheiro vai ser gasto todo em edições de Jean Sol Partre.

O relacionamento avança e os dois se casam de maneira opulenta em uma Igreja Católica um pouco diferente. Na lua de mel, Chloé é infectada com um nenúfar que cresce em seu pulmão. A flor a devora e a única cura é cercá-la de outras flores, o que mina a fortuna de Colin, que logo se vê obrigado a trabalhar.

O cenário de Vian é onírico no sentido mais preciso. É como se o autor tivesse transcrito um sonho completo para o papel. O surrealismo vai muito além de máquinas e situações inimagináveis – como o Pianocktail de Colin, ou de paredes que se curvam ao som de jazz. A loucura está muito mais nos personagens e na maneira com que agem.

Os diálogos que envolvem negociações são o principal exemplo: em uma situação, Colin vai vender seu pianocktail, e insiste para o comprador pagar menos do que estava disposto a oferecer. Em outra, Chick vai comprar acessórios do Partre e o vendedor lhe pergunta se ele iria mesmo comprar, se não gostaria de lhe assaltar.

O único negociador que mantém a lógica real de barganha é, não por acaso, a Igreja. Quando Colin tem dinheiro, é oferecido um casamento de luxo. Quando não tem, faz-se questão de oferecer o pior enterro possível.

Outra situação louca é um dos empregos de Colin, como fornecedor de calor para a construção de armas. O trabalho consiste em ficar deitado nu sobre as armas-bebê, para que cresçam com um pouco de calor humano. Mas Colin é incompetente também nisso.

A história gira em torno da decadência de Colin à medida que tenta salvar sua mulher que só piora do nenúfar, e o desespero de Alise ao ver Chick afundando cada vez mais em Jean Sol Partre. Ao final, Chick a abandona pelo filósofo. Alise, indignada, aproxima-se de Partre com uma máquina de tirar corações e calmamente negociam sua morte. Por garantia, a mulher sai matando todos livreiros da cidade, e queimando suas lojas.

O último trabalho de Colin é como anunciador de notícias ruins. O emprego consiste em anunciar notícias ruins antes que aconteçam, como mortes e acidentes, apenas com função de aumentar a previsibilidade, já que o destino é inevitável. Um dia Colin é obrigado a anunciar a si mesmo que Chloé morreria no dia seguinte.

O romance de Vian não deixa lições de moral fáceis. É uma crítica ao trabalho pós-Revolução Industrial, uma crítica à filosofia de grife, entre outras coisas. O sonho de Vian parece extremamente realista quando estamos devidamente imersos em sua fantasia, e as desgraças do mundo real não desaparecem. Também é uma ode ao jazz, à época em sua força máxima com os representantes do bebop.

Algumas semanas depois descobri que o filme seria lançado no Brasil. Fiquei extremamente ansioso, e fui conferir um dia após a estreia. Não havia assistido a nenhum filme de Gondry – nem Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Não sabia o que esperar, portanto. Chloé é interpretada pela onipresente Audrey Tautou – em minha opinião muito envelhecida para o papel, ainda que atue bem no longa.

Para mim o filme foi uma decepção. Não é que esteja mal-produzido, mas ele simplesmente não tem o mesmo mood que o livro. O diretor deu um ar de Castelo Rá-Tim-Bum que não existe no livro. Aquela personagem do ratinho, por exemplo, é extremamente tosca e poderia ser suprimida – já que no livro ela é bem irrelevante.

Como ponto positivo, a perda de luz e de cores à medida que o filme vai avançando é genial e encarna bem o espírito de Vian. Eu não sou muito fã daquelas pessoas que ficam bradando “o livro é bem melhor que o filme”. Em geral elas estão certas, mas a versão no cinema, apesar de tudo, consegue captar o espírito que o autor pretendia.

A Espuma dos Dias é um dos casos em que eu terei que ser um dos chatos. O livro é um clássico que adiantou algumas das novidades do movimento beatnik em dez anos, enquanto que o filme é no máximo passável. Essa versão para o cinema, apesar de ter sido feita com carinho, vai cair no esquecimento.

Contudo, eu consigo perdoar o diretor e toda equipe. Não sei como alguém conseguiria transpor para o cinema o universo surrealista de Vian sem cair em excesso de efeitos especiais e superficialidade da verdadeira loucura do livro, presente nos diálogos. Vale a ida ao cinema, nem que seja para se interessar em ler o livro.

Aliás, para quem não fala francês, a Cosac Naify vai lançar uma nova edição em breve (ou já lançou, nem sei). Recomendo que confiram! Esse livro deveria ser mais conhecido no Brasil.

Word Count

L’Esprit du Temps, by M. – 12.249

The Metamorphosis, by Franz Kafka – 21.810

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Um pensamento sobre “Meus centavos | A Espuma dos Dias, por Boris Vian

  1. Eu, que saí impactada do cinema por esse clima surreal e todo o simbolismo, posso dizer que vale, sim. Agora quero comprar o livro. Gostei muito do teu post.

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