Meus centavos | O Idiota, por Fiódor Dostoiévski.

Acabei de ler O Idiota, de Fiodor Dostoievski. Fazia muito tempo que não lia escritores russos e estava completamente desacostumado com o estilo. Demorei um pouco para engrenar no enredo, mas pouco a pouco fui me ambientando. Já deixo claro que esse não é o melhor romance de Dostoievski, mas também está longe de ser o pior e vale com certeza a pena de lê-lo.

Antes de começar a falar sobre o texto, quero fazer uma menção à edição e à tradução. Minha fase de vício nos russos foi mais ou menos uns sete anos atrás, e li praticamente tudo de Dostoievski e Tolstói. Contudo, duas vezes já havia pegado O Idiota para ler – em edições bem fajutas com traduções obscuras – e nas duas acabei desistindo.

Comprei a preciosíssima edição da Editora 34 com desconto em uma feira do livro na USP. A tradução é do renomado Paulo Bezerra, e se baseia diretamente no texto em russo. Devido ao preço, eu não havia lido nenhum outro autor russo nas traduções da 34, e apesar de imaginar, a diferença é muito mais do que apenas sensível em relação a outras edições. Para deixar em termos mais claros, é como comparar uma Mercedes com um Gol 1.0 – ambos te levam a teu destino, mas a viagem é completamente diferente.

Versão primorosa da Editora 34 - tradução de Paulo Bezerra.

Versão primorosa da Editora 34 – tradução de Paulo Bezerra.

Por influência dos autores russos, eu havia estudado um pouco do idioma no passado, e embora tenha esquecido muito com o passar dos anos, pude perceber nitidamente a preocupação do tradutor em manter o modo de construção literária russa. Todas as outras traduções que tive contato possuíam um ar francês, o que se explica por serem traduções de traduções francesas.

Além do trabalho sempre primoroso da 34 em oferecer edições de luxo. Li recentemente A Divina Comédia pela editora, e também não me arrependi. O Idiota conta com gravuras interessantíssimas de Oswaldo Goeldi, inicialmente publicadas para edições da José Olympio nos anos 40.

Em suma, os preços salgados da 34 se justificam, ainda que sejam uma grande barreira para vários leitores. Vi que a editora está lançando alguns títulos em versão pocket, talvez se interessem no futuro em lançar alguns de seus russos. A Cosac Naify, outra editora de ponta, também conta com a mesma iniciativa. Há uma perda evidente da qualidade da edição, mas se é para uma maior democratização de um trabalho primoroso, eu apoio e até mesmo compro, já que não sou milionário.

Com uma pequena nota, apenas. Paulo Bezerra utiliza muitas vezes a palavra incontinênti, que convenhamos, é uma palavra que salta aos olhos. Eu gostaria sinceramente de saber se o tradutor escolheu usá-la com algum critério, talvez até tradução literal, ou se apenas apareceu por aparecer. Enfim, notas de um leitor chato. Isso é tudo sobre a edição e tradução, começo a falar sobre o texto.

Dostoievski conta em O Idiota a história do príncipe Mishkin, que sofre de epilepsia e é a definição pura de imaculado. É um ser completamente altruísta, capaz de perdoar até as maiores injúrias – e são várias ao longo da história. O príncipe perdeu os pais ainda na infância e foi adotado como pupilo por um senhor de terras abastado, que posteriormente o enviou para um sanatório na Suíça.

Os personagens principais são apresentados todos na primeira parte do romance. O príncipe se encontra com Rogójin e Liebdiev no trem a caminho de Petersburgo, quando voltava para a Rússia depois de abandonar/ser expulso do sanatório. Então somos apresentados à casa dos Iepantchin, com a irritante generala e a central Aglaia, filha mais nova com um temperamento muito peculiar. Também somos apresentados à Gavrila e a sua família, com o mentiroso de carteirinha, general Ivolguin, e o desprezível Fierdischenko. E mais importante, somos apresentados à Nastassia Filipovna – em minha opinião, a melhor personagem do romance.

Nastassia é uma moça órfã como Mishkin, que cresceu no campo e teve o azar de ter como pupilo o aristocrata Totski, que a molestava sexualmente. Mais crescidinha, Nastassia se muda para Petersburgo com o intuito de extorquir o velho – que queria casar-se com alguma outra garota mais respeitável. Nastassia , portanto, é desgraçada desde o início e isso que dá a tônica de seu comportamento ao longo do enredo.

Ao final da primeira parte, descobrimos que Mishkin tem direito a uma herança milionária, e ele pede Nastassia em casamento, que recusa e parte com o impulsivo Rogójin – que havia coletado cem mil rublos para oferecer como dote. Nastassia joga o dinheiro ao fogo, para aflição geral de sua plateia.

Não vou me estender sobre o enredo. O livro é interessante e tem uma história envolvente. Como todo russo, Dostoievski mistura teorias de temas do pensamento russo e religião com cenas sugestivas e diálogos marcantes.  E obviamente o tema do niilismo é presente.

Resumindo antes de me ater a pontos que quero marcar, O Idiota conta a história da inserção de Mishkin – uma espécie de alien completamente imaculado, um Jesus Cristo inconsciente de sua divindade – na sociedade corrompida russa do Século XIX, e sua obsessão por duas personagens, Aglaia Iepantchina e Nastassia Filipovna. Apesar de Dostoievski ir além, o conflito básico é entre Mishkin e as duas mulheres. O final naturalmente não pode ser bom.

É importante lembrar que Dostoievski tinha um carinho todo especial por Mishkin, visto que ele próprio também era epilético. Para o autor, a loucura do príncipe era uma espécie de chaga que lhe garantia pureza, a mesma pureza que permitia com que Mishkin se desse bem no trato com crianças. A personagem também é comparada várias vezes com Don Quixote, outro louco idealizado.

O primeiro ponto que quero marcar que afeta um pouco a graça da história, ao menos para mim: a maior parte do enredo se passa em Pavlovsk, uma cidade do interior em que os ricos passavam o verão – uma Combray russa, por assim dizer. Isso deu um toque francês para O Idiota, e minimiza uma das maiores qualidades que vejo em Dostoievski: Petersburgo.

O autor descreve tão bem a cidade em outros romances (especialmente Crime e Castigo e Noites Brancas), as andanças pelas ruas, os personagens populares. Petersburgo é uma personagem de Dostoievski per se. O Idiota praticamente não tem personagens do povo, no máximo alguns membros de uma classe média. Pessoalmente, acredito que Dosto se sai melhor ao descrever o povão.

Além disso, ao ler Dostoievski, todos nós esperamos automaticamente que vá haver um crime interessante, narrado de uma maneira especial e que iria afetar toda a história. Bom, O Idiota tem o crime apenas como desfecho – ainda que seja narrado do modo genial que só Dostoievski sabe.

Outro ponto sobre os personagens, a verdade é que Dostoievski caprichou. Eu digo, caprichou na maldade. Não tem uma personagem sequer com quem me simpatizei ao longo do enredo, e minha vontade era que aparecesse um atirador e matasse todo mundo. Todos são péssimos, exceto Mishkin que só é muito bobo e chega a ser chato de tão idiota, o que provavelmente significa que Dostoievski acertou.

Ainda assim, a genialidade do autor está sempre presente. É especialmente notável a cena do jogo de Fierdischenko, em que os presentes deveriam contar de forma sincera sua pior história. Entre outros, estão presentes à mesa Totski e o general Iepantchin, além de Nastássia Filipovna. O primeiro, que estuprava Nastássia, conta uma história até inofensiva sobre como ele ferrou com um amigo em uma questão amorosa – na maior cara de pau. A cena é simplesmente uma das melhores de todo Dostoievski, e impossível de ser resumida com justiça.

Também é marcante a presença do coadjuvante Keller (aparece pouco, mas sempre consegue gerar ódio no leitor), que inventa as piores calúnias sobre o príncipe para um jornaleco em um caso particular, e depois é convidado para ser padrinho de casamento pelo próprio Mishkin.

O Idiota era a leitura que faltava para me dar por satisfeito com Dostoievski. Ainda há alguns outros romances e contos que não li, mas confesso que nenhum me chama muito à atenção, exceto talvez O Duplo.

É um romance muito prazeroso de se ler, e podemos ver um Dostoievski diferente – que olha de cima para baixo. A experiência é interessante, e todo aficionado em literatura russa não pode prescindir de se dedicar ao Idiota. Gostaria de saber as opiniões de quem já leu, de quem leu outro Dostoievski, de quem pretende ler um dia, ou de quem quiser falar qualquer coisa.

Word Count

L’Esprit du Temps, by M. – 11.149

The Metamorphosis, by Franz Kafka – 21.810

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