Retratos fictícios de São Paulo | Seu Jairo

Seu Jairo é taxista, e tem uma frota na Rua Gaivota, em Moema. É um cara moderninho, tem GPS e localizador em todos seus dez táxis. Implementou ultimamente um aplicativo que permite que os clientes localizem seu táxi mais próximo. É conhecido no bairro, todos gostam de sua presença.

O taxista é o exemplo do self made man. Começou como taxista de um rádio taxi, mas foi economizando e juntando dinheiro até poder comprar sua própria viatura, e depois, o próprio ponto. A prosperidade seguia e alguns anos depois comprou seu segundo táxi. E daí foi um pulo para montar o resto da sua frota – e também para comprar um apartamento em Moema, na Rua Pavão.

“Sempre quis morar perto do trabalho. Como você sabe, o trânsito é o maior inimigo do taxista. Assim, acordo as seis, levo minhas filhas pra escola a pé e começo o dia”. O ponto funciona vinte quatro horas, mas depois de quase trinta anos de trabalho, Seu Jairo passa o turno da madrugada para dois de seus funcionários, ainda que afirme que trabalhou nas noites paulistanas durante muito tempo e saiba das dificuldades e perigos.

“Todo sábado à noite acontecia de alguém vomitar no meu táxi, e eu perder a noite inteira de trabalho. Fora os assaltos”. Seu Jairo já foi assaltado mais de dez vezes em sua carreira, e todos seus empregados o foram pelo menos uma vez. A violência sempre foi uma constante na cidade, apesar de Seu Jairo achar que melhorou com o tempo.

Acompanhamos o taxista em todo dia de trabalho. Começou com um cliente antigo, que trabalhava em um dos escritórios da região, que já havia reservado uma viagem ao aeroporto. Seu Jairo estava animado, são as viagens ao aeroporto que dão mais lucro. Pegamos um pequeno trânsito, e Lopes – o passageiro – estava um pouco preocupado em perder o voo.

“Conheço o Seu Jairo há mais de dez anos, ele já é uma referência em Moema. É um taxista idôneo, que não engana o cliente e faz de tudo para que o passageiro desfrute da melhor viagem possível”, diz Lopes. E pudemos atestar que é verdade. O táxi de Seu Jairo é um modelo espaçoso, e possui uma televisão por satélite instalada. O chofer se orgulha, dá pra ver até canais alemães e chineses.

“Outro dia entrou um grupo de franceses do meu táxi, eu coloquei na televisão de lá, estava passando notícias, eles ficaram extremamente agradecidos e deixaram uma bela gorjeta”. O taxista conta que aprendeu o inglês ano passado, fez um curso noturno com um de seus funcionários. Agora, ele diz, quer que todos no ponto aprendam o idioma para a Copa. Ele mesmo já se arrisca no Espanhol, mas confessa que não sabe nada da língua: “É meio parecido com o português, né? Eu aprendi alguma coisa como calle, tarjeta, dirección, já dá pra conversar”.

E Seu Jairo gosta muito de conversar. Sempre conta suas histórias de tempos passados em São Paulo e dá suas opiniões. Seus alvos preferidos sempre são os prefeitos. Mesmo os que tem a simpatia de Jairo sofrem críticas. O único imaculado é Jânio Quadros. “A cidade era um brilho nos tempos do Jânio. Eu achava lindos os ônibus de dois andares”. Questionado se eles não atrapalhavam o trânsito, Seu Jairo é enfático: “Não mais que esses biarticulados! Que ideia terrível! Isso só acontece no Brasil. Imagine se a Nhambiquaras é lugar de passar ônibus, quanto mais biarticulado! Mal passa um carro ali”.

A solução para o trânsito, segundo Seu Jairo, é muito fácil. É só construir mais metrô. “Eu tenho vários clientes engravatados que pegam táxi nos dias de rodízio, e todos eles dizem que deixariam o carro em casa se houvesse metrô da porta de casa à porta do trabalho. E olha que são bem ricos!”.

Seus clientes mais frequentes gostam de ouvir a opinião do taxista – ele não acredita na necessidade de pena de morte para estupradores, mas defende veementemente castrá-los quimicamente. Ele também não é a favor da volta dos militares, mas é um dos poucos malufistas restantes.

Após deixar Lopes no aeroporto, Seu Jairo aproveitou e pegou outros passageiros, dessa vez dois americanos que vieram a negócios e ficariam no Renaissance da Alameda Santos. Seu Jairo nos proibiu de falar português no carro, e em inglês fomos até o hotel, fazendo algumas perguntas aos passageiros.

Eles confessaram que o maior medo que sentiam do Brasil era a violência, e ficaram extremamente temerosos quando passamos pelas favelas ao longo da Ayrton Senna. Seu Jairo os tranquilizava, e dizia que não passariam por nenhum problema – ligou a televisão na CNN para deixar seus clientes mais confortáveis.

Quando pediam dicas, Seu Jairo era sempre atencioso e recomendava lugares clássicos de São Paulo, como o Sujinho. “Se vocês gostam de carnes, é a melhor bisteca que vão provar, posso garantir”. Ao chegarmos ao hotel, o taxista desceu, tirou as malas e entregou o cartão a seus passageiros. “Podem me chamar quando estiverem voltando, levarei vocês com a maior satisfação”.

Sempre que pega algum cliente estrangeiro, Seu Jairo faz questão de deixar seu cartão. “Metade realmente me liga para leva-los ao aeroporto na volta”. Nisso já era quase meio dia e Seu Jairo sugeriu um almoço no próprio Sujinho – ficou com vontade após a sugestão dada.

Enquanto comíamos a famosa bisteca, Seu Jairo falava alguns dos principais problemas que via na cidade. A falta de segurança, é claro. E o trânsito. Além disso, reclamou do excesso de mendigos nas ruas, dos noias do centro da cidade. “Alguém deveria fazer alguma coisa por aquelas pessoas”. Seu Jairo pediu uma água com gás e falou que antigamente possuía o hábito de tomar uma cervejinha no almoço – mas agradece a conscientização que a Lei Seca trouxe. Para ele essa foi a melhor lei feita no Brasil. Essa e a Lei Antifumo. Também é grande fã do ex-governador José Serra, mas não o poupa de suas críticas.

Após o almoço, Seu Jairo colocou o táxi para funcionar de novo, e antes de cinco minutos um passageiro o chamou. Era um jovem que ia para a Universidade de São Paulo, assistir a uma palestra. Seu Jairo lhe ofereceu o jornal e começou a discutir as notícias do dia. Como todo taxista e praticamente todo brasileiro, não dispensa um futebol e sabe as notícias de todas as contratações dos clubes brasileiros e europeus. O jovem desceu no seu destino, e Seu Jairo rumou para Moema.

Após algumas viagens curtas, Seu Jairo voltou para casa. Hoje não iria trabalhar à noite. O caixa registrava quinhentos reais. “É um dia médio, às vezes conseguimos mais, outras vezes menos, depende da sorte”. Fechou a conta e agora iria para um curso de profissionalização do sindicato com seu funcionário mais antigo, Maurício. Parou em casa para tomar um refresco e ver a mulher e as filhas.

Dona Larissa havia acabado de chegar em casa, trabalha em uma agência bancária a poucas ruas de distância. “É bom porque dá pra buscar as filhas no horário de almoço, eu deixo uma coisa pronta aqui de noite e nós comemos de dia”.

“Essa aqui tá pensando em seguir carreira no turismo”, apontou  Seu Jairo orgulhosamente para a filha mais velha, Tainá, de 16 anos. Seu Jairo não quer que nenhuma de suas filhas siga carreira de taxista – mesmo que tenha uma funcionária mulher no ponto, acredita que é uma profissão muito perigosa, especialmente para uma mulher sozinha. “Deixá-las dirigir um táxi seria um medo constante, essas ruas são muito perigosas”.

Mas gostaria que as filhas herdassem o ponto construído pelo pai com tanto esforço, e Tainá até esteve presente na reunião com a empresa de aplicativos para táxi. “Foi meio sem querer, eu tinha interesse em aplicativos no celular, e fui com meu pai para a Livraria Saraiva do Shopping Ibirapuera, para ver livros. No entanto, o papo no café estava tão interessante que eu até fiz algumas perguntas”, diz a jovem.

Tamiris, mais nova, tem apenas oito anos, e por enquanto os únicos táxis que se interessa são os de brinquedo, que comprou na viagem que fez o ano passado com a família para Orlando. “A alegria dessa menina no avião foi o combustível pra todo esse ano de trabalho, essa família é tudo para mim”, conta Seu Jairo, com um princípio de lágrimas nos olhos.

Desceu então e encontrou Maurício, e seguiram para o encontro no táxi deste. “Trabalho com o Seu Jairo há vinte anos, e não é porque é meu chefe, mas encontrar outro igual a ele é impossível. É meu amigo mais do que patrão”. Seu Jairo agradeceu timidamente, e falou que estava pensando em abrir sociedade com Maurício para expandir a frota.

Participaram da reunião e fizeram inúmeras perguntas. O tema do curso era como inserir tecnologia no dia a dia do taxista. Voltaram para Moema pelas dez da noite, cansados, mas satisfeitos.

“Eu escolhi ser taxista meio que por acaso. Gostava muito de dirigir, e pensei que podia fazer algum dinheiro com isso. Descobri nisso meu dom, e não poderia ser mais feliz. Quero agora só expandir minha frota, e continuar com o bom trabalho”, conclui Seu Jairo, com um sorriso sincero no rosto.

Word Count

L’Esprit du Temps, by M. – 9736

The Metamorphosis, by Franz Kafka – 21.810

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s