Religion, Me, Tetris and Iliad.

Estou num momento curioso de redescoberta da divindade. Eu nasci em uma família católica e segui a religião até mais ou menos o momento da minha comunhão. Aliás, minha catequese foi o que mais me desvirtuou. As aulas maçantes e bem mal explicadas não eram nenhum incentivo para que qualquer jovem seguisse qualquer religião. E como sempre fui uma pessoa inconformada, logo comecei a questionar e vi que não tinha motivo para ser católico – para algum desgosto do meu pai, que posteriormente assimilou.

Aliás, numa digressão. Esse ano foi muito importante para o catolicismo, na medida em que pôde rever seus valores, métodos e práticas com a escolha do novo Papa. Uma das mudanças mais importantes que faria – fosse eu o Sr. Francisco – seria mudar o formato de catequese, e especialmente, dar mais preparo aos catequistas. Eu sou extremamente partidário da ideia de que uma aula pode mudar a vida de uma criança. Mas encerro a discussão, mesmo porque não sou católico, e por mim a instituição pode afundar inteira.

Passei por um período de ateísmo completo, o que foi realmente bom para mim. Era um momento em que eu confiava em mim mesmo e não tinha necessidade de alteridade alguma. Passei alguns anos sem questionar o ateísmo e não me arrependo, sinceramente. Várias das minhas conquistas não tiveram relação com Deus.

Contudo, eu acreditava de algum modo que avançávamos todos ao infinito, que conforme eu me dedicasse a algo – mas uma dedicação sincera, eu conseguiria alcançar o que desejasse depois de certo tempo. Era quase uma propaganda da Nike. Eu sei, parece uma crença ridícula, não é assim que a vida funciona e só um garoto mimado poderia pensar isso. Mas era assim que eu pensava, até recentemente.

E agora vem minha contribuição ao pensamento Allenesque. Nunca fui um grande fã de jogos. Joguei poucos ao longo da minha vida, e acho que só tive um video game. Eu realmente não gosto muito. Um dos poucos jogos que gostava de jogar na minha infância era o genial Tetris. Tem algumas semanas encontrei meu Game Boy antigo (verdade seja dita, era o do meu irmão), e o cartucho de Tetris. Obviamente fui jogar.

Ao mesmo tempo, estive lendo a Ilíada. Sou um grande fã de literatura, mas eu, assim como praticamente todos os amantes de literatura, fazemos um caminho todo confuso de leituras. Claro, isso é culpa de nossa formação escolar. Para nossas escolas – e ressalto que eu tenho que agradecer todos os dias por ter estudado em uma decente – o que há de mais clássico em literatura é o período que viemos a chamar de Realismo. Os estudos sobre períodos anteriores é extremamente superficial e vemos apenas como pitoresco. Grego e latim são desprezados, e grandes mestres como Homero – ou mesmo Shakespeare – são completamente esquecidos.

Meu caminho natural, assim como de muitos outros jovens, foi começar pelos realistas. Assim, logo com treze ou quatorze anos li todos grandes russos, pulei pro Realismo mágico de García Marquez e li algumas outras coisas. Ainda com quatorze anos comecei a ler Ulisses, só pelo desafio que se apresentava. Conforme fui evoluindo na literatura li outras coisas como Thomas Mann, Guimarães Rosa, Huxley ou Virginia Woolf, e ultimamente só estive lendo literatura moderna. Como exceção, li quase todo Shakespeare. Mas nunca havia lido nenhum clássico. Nenhum Homero, nenhum Dante.

E esses dois fatos, Tetris e Ilíada, me fizeram pensar na forma em que estou pensando em Deus nesses dias. Minha formação católica sempre me fez pensar que se existisse algum Deus, era um Deus redentor, que surge para nos salvar e só quer o nosso bem. É um Deus que atende seus pedidos e ânsias e perdoa todas nossas falhas. Creio que nunca havia pensado fora da caixa sobre esse assunto.

Tetris, como bom jogo arcade, não tem final exceto a derrota. A vitória do jogador é persistir o máximo de tempo fazendo o melhor desempenho possível. Ao mesmo tempo um computador sádico distribui peças de maneira perfeita pra te testar. Na teoria, a queda das peças é aleatória, mas na prática, todo jogador de Tetris sabe que o computador põe à prova sua capacidade de segurar o tranco. E ainda, conforme o jogo avança, as peças caem mais e mais rápido.

A Ilíada, por outro lado, apresenta a história de humanos guerreiros que apelam aos deuses, e divindades que só se diferenciam dos humanos pela imortalidade e alguns poderes especiais. Afrodite é ferida por Diomedes e salva Páris de Menelau. Zeus é enganado por Hera, que tem por intento ajudar os gregos. A falta de uma oferenda faz qualquer deus ficar ressentido com o humano em questão e até o prejudique. Os deuses, aliás, têm até papel de mediador quando Príamo se dirige a Aquiles para recuperar o cadáver de Heitor. E ainda uma outra característica, a personificação. Diversos elementos da paisagem e sentimentos são transformados em deuses, como o rio-deus Escamandro, que luta contra Aquiles, ou o deus Sono – que como o nome sugere, traz sono às pessoas.

São duas formas diferentes de pensar em Deus e no destino, Tetris e a Ilíada, e talvez esse texto esteja soando um pouco louco. Mas parando pra pensar nessa ótica, vemos duas concepções de transcendente que divergem completamente da tradição cristã que é dominante no Brasil e basicamente no mundo ocidental.

A vida segundo Tetris nada mais seria que organizar melhor os recursos e oportunidades que são distribuídas do céu por um ser superior. Conforme o tempo passa fica mais difícil aproveitá-los, e eventualmente, por mais cuidadoso que seja, você vai cometer um deslize que afeta a construção inteira, o que te leva mais perto do fim. De uma forma ou de outra, o desfecho é igual. Tudo o que resta é a glória de ter seu nome entre os recordistas. Mas mesmo o maior recordista foi derrotado por aquele “Deus” que joga as peças do alto. Aliás, forçando a barra, você perde o jogo quando chega mais perto da divindade sorteadora de recursos.

E por outro lado, os deuses da Ilíada são vaidosos, vãos, e não afetam em nada o destino após a morte. Independente de que regra moral sigam, todos mortais acabam no Hades. Cada mortal tinha um deus específico protetor. Por isso, os agrados aos deuses visavam apenas a benefícios materiais terrenos, e ao mesmo tempo, a falta para um dos deuses era digna de punição. Para os deuses, os mortais eram apenas joguetes para matar o tédio no Olimpo. Para os antigos gregos, a única maneira de se imortalizar era através de feitos heroicos que seriam lembrados para sempre no mundo dos mortais. É por essa razão que Aquiles resolve lutar ainda que saiba que esteja destinado a morrer. E numa pequena metáfora, é um pouco como o recorde gravado no jogo de Tetris. Aquiles era o maior dos Aqueus, ou o maior recordista de Tetris.

Tudo que escrevi até agora não tem nada a ver com qualquer crença pessoal. Não é que eu vá começar a matar bois para Zeus. São apenas coisas que me fizeram pensar em como a visão de uma divindade pode ser completamente diferente da que estamos acostumados. Nas religiões afro-brasileiras, por exemplo, a transcendência se aproxima muito mais da visão grega – ainda que de maneira completamente diferente – do que de um Deus cristão que te julga por suas faltas, mas que perdoa seus pecados e distribui bênçãos na sua vida.

Hoje me considero um agnóstico. Não penso mais que tudo seja possível, Mais precisamente, gosto muito da visão de Pascal sobre a aposta na crença em Deus, mas sinceramente, não sei qual Deus existe – considerando sua existência. Talvez seja um Deus que te dê forças em horas de dificuldade, talvez seja um Deus ao qual sejam necessárias oferendas e agrados, talvez seja um Deus indiferente. Não temos como saber. Mas jogar Tetris e ler a Ilíada me fizeram pensar nas diferentes formas que a humanidade enxergou e enxerga o contato com o transcendente.

Gostaria que meus leitores compartilhassem suas visões a esse respeito, ou visões ainda diferentes de outras religiões e grupos históricos. E claro, todo debate é incentivado aqui.

L’Esprit du Temps, by M. – 8199

The Curious Case of Benjamin Button, by F. Scott Fitzgerald – 9129

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