Tauromaquia

As touradas continuam vivas. Atacadas, porém vivas. Ao menos na Espanha e na França, onde tive a oportunidade de assistir a espetáculos tauromáquicos, as touradas vão muito além de serem apenas armadilhas para turistas. Milhares de locais se aglomeram nas plazas de toros para ver seus ídolos, os toreros, entrarem num duelo de vida ou morte (na teoria) contra o touro.

Por seu caráter selvagem, são muito atacadas pelas associações de direitos dos animais, e não são bem vistas pelo mundo ocidental de maneira geral.  De fato, nem dentro da Espanha as touradas são consenso. A Catalunha barrou as touradas de seu território, e esse ano ocorreu a última tourada da Plaza de Toros Monumental, em Barcelona. Em geral a população mais jovem é contra. A consequência natural é que no futuro elas acabariam por falta de público, o que poderia levar a uma proibição. Mas por enquanto estão muito vivas.

Os defensores afirmam que o touro de lidia é muito melhor tratado que o gado de corte, e que mesmo seus momentos finais são melhores que o abatedouro. Não que seja motivo convincente para a defesa (afinal, menos pior também é ruim), mas ver uma tourada, que na visão de seus defensores é melhor que o abate, realmente me fez pensar na relação com o consumo de carne.

Pessoalmente sou contra touradas. Não há motivos para continuar existindo. É o mais próximo que temos dos gladiadores romanos, e com certeza evoluímos como sociedade. Mais do que isso, as touradas são financiadas com dinheiro público. Não é um espetáculo que se sustenta sozinho, e toda a cadeia tauromáquica, desde as ganaderías até os heróis, toreros, são sustentados pelo contribuinte espanhol. Se eu fosse um cidadão espanhol, independente da crise, não gostaria de ver o meu dinheiro sendo gasto com toros. Bom, na realidade a Espanha ainda tem algumas preciosidades, como a monarquia, que em si não precisariam existir.

Num momento em que austeridade é palavra de ordem, o gasto com touradas realmente me parece supérfluo. Mas, mais uma vez, eu sou brasileiro, e não espanhol. Um espanhol defensor de touradas afirmaria que esse é um gasto para manter um patrimônio cultural, e seria tão importante quanto gastos em museus ou óperas, que também não conseguem se manter comercialmente.

Contudo, não se pode negar o motivo da existência de touradas. Os espetáculos taurinos remontam a uma época em que a natureza ainda era selvagem, inexplorada. Uma natureza que dava medo.

Meu pai nasceu em uma cidadezinha pequena, no Sul do Brasil. Cresceu nessa cidade, povoada por colonos italianos que detêm pequenas porções de terra. Ainda hoje, nessa região, há vários hectares de mata atlântica nativa, intocada. E meu pai se lembra, de quando era criança, do dia que a última onça foi caçada na região. Era uma onça grande, que assustava os lavradores em seu ofício. No dia em que foi morta, os “heróis” desfilaram com ela pela cidade, para alegria de todos, que podiam ficar mais seguros. Isso deve ter sido no final dos anos 60.

Hoje, mesmo com a caça abolida, meus tios que ainda trabalham no campo sabem bem o risco que significa um porco do mato. E eles sabem muito bem o perigo que um touro solto no pasto representa. Acho que todo mundo que trabalha no campo tem alguma história de correr de touro, para não ser chifrado. Nunca fui perseguido por um touro, contudo, só de tentar fazer carinho numa vaca presa para ordenha, vi o quanto esses animais podem ser ariscos. Não que interfira no argumento, mas como curiosidade, nenhum de meus tios apoia a tourada.

De novo, isso não é motivo para que uma festa que envolva a morte do touro continue existindo. Continuo sendo um defensor de seu fim, e aplaudo o exemplo de Barcelona. Mas me faz pensar em alguns aspectos.

Primeiramente, em como nossa civilização urbana ocidental foge da visão da morte. Enquanto nossos antepassados se dedicavam a ir toda semana à igreja para expiar seus pecados, pensando no pós-vida, nós guardamos nossos domingos a ir correr no parque. Nossos antepassados criavam a própria comida, e matavam seus bois e galinhas para ter carne.

Uma tourada para algum antepassado não tão distante – talvez seu tataravô – não seria nada excepcional (lembrando-se também que seus antepassados matavam bois a facadas). Possivelmente ele juntaria a família e assistiria ao espetáculo. E torceria pelo toureiro, sem maiores implicações. Inclusive já tivemos touradas no Brasil, que foram abolidas por Vargas.

Não fui atrás de literatura (e nem vou), mas não sei de quando data a primeira crítica à tauromaquia. Hemingway – ele mesmo um aficionado – já citava o desprezo de alguns de seus contemporâneos (todos de criação urbana) aos espetáculos taurinos. Mas claro, o repúdio à tauromaquia como opinião geral não deve datar mais de quarenta anos.

Evoluímos, claro, e conseguimos nos manter distantes dos aspectos mais cruéis da sobrevivência. A invenção de frigoríficos foi uma revolução para o mercado urbano, com falta de espaço para criar gado. E isso obviamente é muito bom. Não temos problemas em conservar comida, não precisamos aproveitar o boi inteiro e apenas selecionamos as partes que nos interessam para consumo – o que torna a carne e o processo produtivo mais barato.

Claro que por outro lado, deixamos de ter a morte ao nosso lado. Isso explica ao menos parcialmente o motivo da paz nas sociedades urbanizadas nos últimos cinquenta anos. Paz essa que possibilitou a criação de entidades como a União Europeia.

Pode parecer contraditório, muitas pessoas acreditam que nunca vivemos em tanta guerra. Talvez em termos absolutos, nunca tantas pessoas morreram em guerra, especialmente as de caráter interno. Abrimos o jornal e vemos notícias da Síria, do Mali. Fora a Somália que não existe como Estado há cerca de vinte anos.

Mas se olharmos relativamente, nunca estivemos tão em paz. Primeiramente, a guerra já é identificada como algo ruim e utilizado apenas em situações extremas. Ou vocês duvidam que cem anos atrás a Coreia do Norte e o Irã já teriam iniciado uma guerra?

Em outro ponto, a dose de crueldade da humanidade diminuiu drasticamente. A pena de morte foi abolida na maior parte das sociedades urbanizadas ocidentais (sendo os Estados Unidos a grande exceção). Para servir de exemplo, uma diversão típica do Renascimento e Idade Moderna era torturar gatos. A guilhotina foi um instrumento usado especialmente no chamado Século das Luzes. E são quase unanimemente considerados incabíveis atualmente, como são consideradas incabíveis pela sociedade urbana ocidental a diversão de alguns chineses em atirar cabras e cachorros vivos para leões em zoológicos.

E nesse ponto entra a tourada. A tourada nada mais é que um dos resquícios da sociedade rural, acostumada à morte, com guerras e saques constantes – a sociedade que criava e matava sua própria carne. A extinção dessa sociedade no continente europeu não é um evento de outras eras.

Há setenta anos o continente europeu passava por sua maior guerra, e isso significa que muitas pessoas vivenciaram esse período, ou ao menos são filhos de cidadãos que sabem (ou sabiam) muito bem o que significava pegar fila para o pão – escasso devido os conflitos. Anciãos que ainda se lembram de serem afastados de sua família para lutar – talvez morrer – por uma pátria que muitas vezes nem era a sua.

E essa linha de pensamento oriunda dos tempos rurais, apesar de ter sido extinta de maneira hegemônica no continente europeu – ou extrapolando, para toda sociedade ocidental urbanizada, ainda se mantém viva e de maneira ativa em pequenos fragmentos.

Eu, como filho de meu tempo e sociedade, partilho da visão urbana ocidental, de que a crueldade não deveria ser incentivada como forma de diversão. E nem como forma de punição. E nem de forma alguma, na realidade.

O peso do relativismo cultural é muito grande em algumas críticas. Não podemos julgar outra cultura com os valores que nossa cultura considera importantes e invioláveis, se relativizarmos. Esse argumento serve para encobrir absurdos como a existência de homens-bomba, ou a imposição de véus para mulheres em alguns países islâmicos. Claro que ninguém é louco de defender, sob nenhum argumento, a mutilação genital de mulheres na África ou a execução de homossexuais.

Nesse sentido, não poderíamos julgar o público das touradas. Eles fariam parte de um background cultural diferente da sociedade urbanizada espanhola, por exemplo. Não à toa, as touradas estão sendo exportadas para a China, que tem uma formação cultural completamente distinta da nossa.

Pessoalmente, não sou fã desse argumento, em nenhum aspecto. Alguns valores são para mim universais, como o respeito à vida – humana ou não, respeito às liberdades individuais, e direito de liberdade de pensamento e expressão, por exemplo.

Esse resquício da sociedade ruralizada que corresponde às touradas deveria ter sido extinto há muito tempo. Algumas soluções intermediárias (que não satisfariam os aficionados) são possíveis, como as touradas portuguesas em que não se mata o touro e tem o objetivo apenas de pular sobre o animal – nervoso por natureza.

A extinção desse espetáculo – ao menos nas sociedades urbanizadas da Europa e América Latina, é visível e tem prazo mais ou menos certo. Em duas ou três gerações espero que não mais vivenciemos os gládios com animais. Contudo, não estou seguro de seu fim em paradas mais distantes, que acabaram de iniciar a tradição. Aplaudo o exemplo de Barcelona, que transformou uma de suas antigas arenas num belíssimo shopping center, que mescla a arquitetura típica desses estádios com toques  de modernidade. Um verdadeiro ritual de passagem da sociedade rural do passado para a urbanização organizada.

Word Count

L’Esprit du Temps, by M. – 6643

The Curious Case of Benjamin Button, by F. Scott Fitzgerald – 9129

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