Efeitos colaterais de Neymar Jr.

Não sou fã de Neymar Jr. Qualquer pessoa que me conhece sabe que não aprecio o estilo do jogador, mas muito mais do que isso, não gosto da maneira que ele se porta e da repercussão de alguns de seus atos na sociedade. Por outro lado, já afirmei em meu post inaugural que um dos meus pontos fracos é esporte. Por isso não quero que este seja um texto sobre esportes. Não pretendo aqui avaliar o rendimento do jogador, ainda que esteja extremamente aquém dos dois maiores nomes do futebol atual – Messi e Cristiano Ronaldo – isso com todas as ressalvas feitas aos diferentes estilos e campos em que jogam os craques e Neymar.

Escrevo esse texto logo após assistir à entrevista do atacante com Jô Soares. Pessoalmente, considero que um teste para mostrar o quão interessante é uma pessoa é a habilidade de fazer o Jô calar a boca. E claro, isso está intimamente ligado com a capacidade de articulação.

E como esperado, praticamente só o Jô Soares falou. Neymar praticamente só ria a cada pergunta. Aliás, digo mais, o Bira em sua pequena intervenção falou mais que o jogador. Com certeza se articulou melhor. Não vou ser nem um pouco disfêmico ao afirmar que meu primo de onze anos renderia uma entrevista melhor sobre futebol. Praticamente a única afirmação completa dita por Neymar confirmou apenas o que todos sabemos: que ele pipoca. Mas pelo menos ele deu um motivo, e acredito que essa foi sua única construção argumentativa em toda a entrevista.

Fora o encontro com o Jô, não gosto da história do jogador per se. Neymar Jr. segue o sonho frustrado de ser estrela do futebol de seu pai, que é quem administra toda a carreira e patrimônio do boleiro. Eu não simpatizo com quem segue os sonhos dos pais sem pensar a respeito, como aqueles casos de famílias de advogados ou médicos, muito tradicionais na classe média alta. Eu sempre penso que ou a pessoa é muito infeliz por não ter seguido outra carreira ou é simplesmente passiva ao extremo para aceitar o destino criado por outros, e nem pensa a respeito. Em exceção, eu também conheço pessoas que apesar de seguirem o ramo escolhido pela família, realmente possuem a vocação.

Porém, infelizmente, e eu corro o risco de estar sendo injusto com o rapaz, Neymar não é uma exceção. Ele aparenta ser um daqueles jovens tapados que simplesmente seguem o plano que seus pais lhe impuseram, em troca de conforto material e de evitar conflitos. Poderiam argumentar que eu estou equivocado, afinal, como poderia ele jogar tanto (para padrões do futebol brasileiro, ressalto) sem ter vocação? Em minha opinião, Neymar apenas se acostumou com seu plano e treinou muito com especialistas, fazendo estágio no Real Madrid ainda bem novo. Talvez com sua genética pudesse ser um bailarino do Bolshoi, quem sabe.

Mas claro, o mais importante para mim sobre sua carreira é o marketing. Com vinte e um anos o jogador tem marca própria e fundação, e é impossível fugir de seu penteado horrível nos anúncios publicitários e exposição em periódicos. Eu não tenho acesso a dados estatísticos, mas tenho certeza que com essa idade craques como Ronaldo, Romário ou Zidane não tinham nem metade da exposição que tem Neymar.

E é curioso que as duas características que citei aqui sobre o jogador – a falta de vontade própria e o marketing – aliam-se em uma decisão que Neymar pai tomou: a de manter seu filho no futebol nacional, por ora, ao menos. Ao deixar o jogador no Santos, Neymar pai capitaliza muito em torno do marketing interno. Em terras nacionais, o atacante é rei. E isso obviamente o torna mais cobiçado para o mercado externo. E por outro lado, isso só demonstra uma vez mais a falta de vontade de Neymar Jr. Sem definição, sem objetivos, o jogador apenas flana em sua carreira – bem sucedida de uma maneira ou de outra. Mais uma vez de forma pessoal, eu gostaria de ter um craque com caráter, com atitude e ambição. Que soubesse o que quer conquistar, quantos gols quer fazer. Nesse sentido Barcos ou Guerrero são mais craques que Neymar.

E eu nem quero fazer maiores elaborações sobre o fato de Neymar ter popularizado a música do Tchu Tcha, que é apenas mais um sintoma dessa passividade do jogador. Além de ter sido um dos maiores gestos de mau gosto da história do futebol. E olha que o futebol em geral é bem escasso de bom gosto.

Não gosto de extrapolar ou criar um cenário apocalíptico, mas sinto que a atitude de Neymar é a que melhor representa o zeitgeist (ou pra homenagear o nome de meu blog, l’esprit du temps) da sociedade brasileira.

Não é necessário argumentar quando o desemprego é virtualmente inexistente, quando há mais vagas do que mão-de-obra. Podemos dispensar o exercício da lógica enquanto o dinheiro entra e não dá sinais de parar. E isso na verdade é muito bom, a oferta ampla de empregos é o sonho de qualquer sociedade (e de qualquer governante). Se há dinheiro para comprar iates e ir a baladas caras, pra quê questionar?

Mas isso traz também alguns inconvenientes. Por exemplo, o questionamento do crescimento pífio do PIB brasileiro foi quase nulo pela população. Não vi ninguém preocupado com isso, ou em como essa quase estagnação poderia significar uma redução dos postos de trabalho, e quem sabe até demissões. Ninguém anda muito preocupado com a inflação, que está em níveis assustadores para qualquer país sério. Nem eu, na verdade.

Não, isso não é culpa de Neymar, ainda que ele seja um dos sintomas desse desprezo da sociedade brasileira pelo questionamento. E friso, eu não estou afirmando que estamos decaindo, muito pelo contrário. A condição de vida do brasileiro nunca esteve melhor. Mas infelizmente, o gosto pela crítica e argumentação diminuiu e muito.

Gostaria apenas de ressaltar outro detalhe: a minha crítica é diversa do famoso país do carnaval e futebol. Os dois espetáculos existem em conjunto no Brasil desde o começo do século XX, e o país já foi mais contestador e mais ativo mesmo com as duas infames atividades de entretenimento. Aliás, os próprios carnaval e futebol já foram críticos diversas vezes ao longo de nossa história.

Eu acredito que o futebol muitas vezes dá indícios de como anda a sociedade. Outro exemplo? Cristiano Ronaldo, um jogador incontestavelmente superior a Neymar, só recebe reclamações no país em que atua, e mesmo em seu país de origem. E com uma capacidade argumentativa inúmeras vezes maior que o atacante santista. Curiosamente são países em crise, com desemprego recorde, em que a população se manifesta de uma maneira que não era vista há trinta anos. Não quero criar nenhuma teoria, mas esse é um exemplo que se aplica. Cristiano Ronaldo nunca sentaria num sofá de um talk show e ficaria apenas dando risada. Provavelmente iria se defender de ataques vindos do apresentador e da plateia. Mesmo tendo metas muito claras, como ser conquistar a bola de ouro de seu rival, Messi.

Talvez Neymar vá a Europa e brilhe, possivelmente irá para lá e perderá seu status de estrela maior em alguns anos, como aconteceu com Robinho e outros tantos. Talvez se mantenha como rei do futebol nacional no Santos. Nada disso invalida sua completa falta de capacidade argumentativa e a devoção cega de alguns de seus fãs que não conseguem enxergar um pouco além.

P.S.: Apenas de forma jocosa: Neymar é tão ruim que nem o Word reconhece seu nome como palavra da Língua Portuguesa.

Word Count

L’Esprit du Temps, by M. – 5053

The Curious Case of Benjamin Button, by F. Scott Fitzgerald – 9129

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6 pensamentos sobre “Efeitos colaterais de Neymar Jr.

  1. Já que você disse que vai escrever na medida do entusiasmo dos leitores, eu vou comentar dessa vez, porque quero ler mais disso que vi nesse post. Você deixou suas ideias amadurecerem na medida certa e as defendeu com lucidez e coragem. O resultado foi um bom texto sobre um tema inusitado que consegue ser universal. Já está na hora de você divulgar esse blog!

  2. Pois é, toda nação precisa de seus heróis, formados ou não. A criançada de hoje não vai se atrair mais pelo Tiradentes, pelo Rambo, ou sei lá, cara. A nação tem que dar o conforto seguinte: Você vai ter mulherada e ser pop.
    Eu diria que o Neymar é igual o Funk Ostentação. Não há nada de errado com nenhum dos dois e isso é foda. O Funk, o Neymar, o Sertanejo Funk são nada mais que retratos ou caricaturas das ambições de uma nação.
    “Ê Brasil… país que não vai pra frente!” soltar esse não é o ideal e me dá nervoso. Eu diria que o Neymar e o Funk (andam de mãos dadas) são uma quimera criada pela própria mídia, pelo sistema ou sei lá que porra. Só sei que é um Frankstein da melhor qualidade.
    Gostei muito do seu texto, você tá com uma fluidez impressionante. Obrigado por compartilhar!

    Grande abraço!

  3. Antes de tudo, muito obrigado pelos comentários. Eles me deram mais vontade de divulgar o blog de maneira mais ampla, o que devo fazer logo.

    Fecer, aí você matou a charada: toda nação precisa de um herói, e um herói que represente bem os desejos de uma determinada época. E claramente, é isso que Neymar representa, assim como o Funk e afins. Não acho que isso seja um problema, como você disse, não tem nada de errado com isso, é só mais uma característica de um país “emergente” privado de bens de consumo. Claro que se formos analisar muitos dos herois e símbolos da chamada elite brasileira, vamos chegar no mesmo padrão. E tudo isso que eu estou falando não é nada de genial, é só um detalhezinho em toda a crítica existente sobre o assunto.

    E não, eu não acho que eles são criados por ninguém. Talvez Neymar Jr. tenha sido criado (como fenômeno) por seu pai, mas não acho que exista um sistema por trás. É apenas um reflexo do zeitgeist.

    Abraço!!

  4. Eu acho que quando você fala “Eu acredito que o futebol muitas vezes dá indícios de como anda a sociedade. Outro exemplo? Cristiano Ronaldo, um jogador incontestavelmente superior a Neymar, só recebe reclamações no país em que atua, e mesmo em seu país de origem. E com uma capacidade argumentativa inúmeras vezes maior que o atacante santista. Curiosamente são países em crise, com desemprego recorde, em que a população se manifesta de uma maneira que não era vista há trinta anos.” podemos ver isso de uma outra maneira também, o Cristiano é o exato oposto do momento que seu país e a Espanha vivem, ele é a vaidade, o sucesso, está sempre nos holofotes, e isso deve incomodar o povo infinitamente. O CR é exatamente o que eles querem ser e não podem. O Brasil estando em um momento bom agora fica feliz por ter o Neymar, não fica ressentido ou com raiva pois consegue se relacionar com ele, a diferença nas críticas e no tratamento dado a cada um pode vir daí também. Excelente texto e vale a reflexão! abraços!

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