Woody Allen Reviews | #1 – Don’t Drink the Water

Um dos meus hobbies, afora escrever para esse blog, é assistir a filmes do Woody Allen nas horas vagas. Ainda não assisti a todos, mas acredito que eventualmente o farei. Nessa noite resolvi ver Don’t Drink The Water, de 1994, filmado para a televisão. Ao longo do filme tive vontade de escrever uma resenha aqui para o L’Esprit Du Temps, o que num pensamento com um toque de megalomania se transformou em uma série de resenhas sobre os longas de Allen que vier a ver.

Para explicar brevemente o formato dessa coluna, resenharei Woody Allen sem alguma ordem específica, cobrindo quase todos os filmes, conforme eu os veja. Não esperem aqui uma resenha de Annie Hall, Manhattan ou Midnight in Paris. Sobre esses filmes milhões de críticos especializados já discorreram e são obras-primas obrigatórias em um cânone universal de filmes.

Vou discorrer pouco sobre aspectos técnicos e curiosidades fora da tela. Caso você tenha interesse, recomendo fortemente o blog americano Every Woody Allen Movie, com maiores detalhes de todos os filmes do diretor. Basicamente darei minha opinião sobre o filme de uma forma comparativa a outras obras do mestre, minhas impressões e possíveis insights.

Don’t Drink The Water

Don’t Drink the Water é uma comédia escrita em 1966 para ser apresentada nos teatros da Broadway. Uma versão cinematográfica foi lançada três anos depois – sem a participação de Allen, que considerou o longa terrível. Em 1994 dirigiu uma versão da peça para a televisão.

Não recebeu muita verba e ainda é uma adaptação de peça. Isso explica o ar Sai de Baixo da comédia: um só cenário, a embaixada norte-americana em Moscou; poucos personagens, todos com alguma característica pitoresca; e algumas cenas de pastelão, que não desmerecem o filme em nenhuma medida, só o tornam mais palatável para a grande massa.

O longa narra a história de uma família judia de Nova Jersey, os Hollanders, que decidiram passar as férias na Europa – para desgosto do pai, Walter, interpretado por Allen, que repete várias vezes como ele preferia ter ido à Atlantic Beach – e acabam confundidos com espiões em Moscou após desviarem da rota do guia turístico, sendo obrigados a procurar abrigo na embaixada dos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo o embaixador norte-americano havia se ausentado por algumas semanas, e deixado no comando da embaixada o filho incompetente, Axel Magee. Toda a trama se desenvolve nas tentativas de fuga da família Hollander e o caráter irredutível de Walter, que não se adapta de nenhuma maneira às situações adversas. Ainda há uma relação afetiva entre o embaixador interino e a filha de Walter, Susan.

É uma história com um enredo simplista – pude prever o final nos primeiros quinze minutos. Nem por isso deixa de ser uma das melhores comédias de Allen que assisti. Apesar de não ter a genialidade de outros trabalhos, foi o filme do diretor em que mais ri depois de Bullets Over Broadway.

Quando os Hollanders perguntam sobre a duração de sua estada na embaixada, Axel responde que na mansão que abriga a sede diplomática vive um padre refugiado há seis anos. Descobre-se então que esse padre tem um hobby de cárcere, a mágica, ainda que ele seja terrível nos truques. Padre Drobney dá um toque de humor mais prosaico ao filme – chega ao ponto do pastelão, contrapondo com os diálogos de Allen, que apesar de muito mais pobres que as inteligentes linhas de Annie Hall, ainda são muito específicas para atingir o público global da televisão.

Walter Hollander e sua mulher aparentam não entender a gravidade de sua situação, já que discutem a maior parte do tempo o negócio de catering em Nova Jersey, as fofocas do bairro e da família, os inconvenientes da cozinha extremamente sofisticada da embaixada e seu chef neurótico, que se torna o maior inimigo de Walter. Nessa linha aparecem algumas das melhores falas de Allen, como essa (em tradução livre, como todas as traduções de trechos nesse blog):

Eu não posso assistir ao baseball, eu não posso ir ao teatro, e você sabe que eu fico perdido sem meu urologista”

O enredo também se desenvolve ao redor de Susan e sua relação com Axel. Conforme o tempo de cativeiro aumenta a garota se apaixona pelo diplomata, e rompe com seu noivo nos Estados Unidos – dermatologista, com especialidade em implantes de cabelo e considerado um bom futuro por Walter e Marion, sua mulher. A cena em que Susan revela aos pais que dispensou seu noivo para ficar com Axel é simplesmente uma das mais cômicas de toda carreira de Woody.

Walter argumenta quais seriam os motivos de Susan, ao que ela responde:

“Eu não estou apaixonada por ele”

                “O homem te comprou uma navalha elétrica cara, como você poderia não estar apaixonada por ele?”

A discussão segue, e a filha dá alguns outros motivos no diálogo com o pai:

“Ele não é romântico o suficiente”

                “Eu acho ele muito romântico!”

                “Não é você com quem ele anda de braços dados”

                “Então se ele estivesse de braços dados comigo, você se casaria com ele?”

Em suma, esse seria um Woody Allen típico, mas é muito mais leve que outras comédias do diretor. As atuações estão decentes, mas não há nenhum destaque individual. A produção é simples, e consta que todo o processo de criação do filme durou apenas duas semanas. É muito interessante pelas sátiras aos ideais dos pais da classe média no contexto de Guerra Fria.

E é isso que leva ao fato que apontei em outros pontos da resenha, esse é um dos mais divertido filmes de Allen, e o espectador não terá perdido seu tempo assistindo a ele. Não se destaca na extensa filmografia do diretor, mas com certeza garante um bom momento de humor inteligente. Gostaria de assistir a uma encenação da peça, para ver como os elementos são apresentados. Numa soma geral, é melhor que Vicky Cristina Barcelona, mas pior que Take The Money and Run.

Word Count

L’Esprit du Temps, by M. – 2901

The Curious Case of Benjamin Button, by F. Scott Fitzgerald – 9129

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s