Descascador de grão-de-bico

Pedro entoava em sua mente o mantra Hare Krishna. Ao mesmo tempo fazia um trabalho que não necessitava ser feito caso algum programador tivesse planejado corretamente o software de distribuição de ações entre corretoras. O trabalho consistia em desmarcar uma casa, apertar a seta para a próxima, e confirmar quando saltasse a caixa de alerta. Desmarcar uma casa, apertar seta, confirmar quando saltasse. Era como descascar grãos-de-bico um a um para a salada do Natal, mas sem saber quando o fim estava chegando.

Antes de começar estimava quantas vezes teria que fazer isso. Um milhão de ações. Se estivessem distribuídas em lotes de duzentas, teria que repetir o processo cinco mil vezes. Quinze mil cliques. Desmarcar a casa, apertar a seta, confirmar. Tomando dois segundos por operação, seriam dez mil segundos, quase três horas. Obviamente a firma não deixou instalar um programa de repetição de cliques.

O mais aflitivo era não saber a funcionalidade dessa tarefa. Na verdade, nem as pessoas que lhe ordenavam fazer isso sabiam a utilidade. Era uma simples falha de sistema, que atualização após atualização ninguém se atrevia a resolver. O trabalho de Pedro em sua maior parte resumia-se a fazer coisas que não precisavam ser feitas.

Se consertassem todas essas falhas, Pedro poderia ser demitido. E a verdade é que mesmo não pensando muito nisso, essa perspectiva não lhe desagradava. Desmarcar a casa, apertar a seta, confirmar.

Para que isso não se tornasse seu mantra, Pedro repetia o hino Hare Krishna em sua mente. Nos primeiros dias de seu trabalho tentava rezar Ave-Marias – rosários e mais rosários de ações – mas se confundia no meio da oração, e perdia o ponto que estava. Ou pior, desmarcava a casa errada, tendo que voltar para corrigir.

Se Pedro fosse vegetariano, já poderia se considerar Hare Krishna. Sua rotina de transporte ao trabalho consistia em andar quinze minutos até o ônibus, mais meia hora de condução, pegar o metrô por dez estações, e subir em outro ônibus até a porta do trabalho. Tudo isso de roupa social. Quando encontrava lugar sentado, Pedro lia. Mas como isso era raridade – sendo o mais comum ficar espremido entre várias pessoas – Pedro cantava o Hare Krishna para si ao longo da viagem.

Chegava cedo, comia uma barra de cereal e tomava uma xícara de café, sentava-se à mesa e se preparava. Começava consertando gráficos que vinham errados de fábrica, depois fazia apresentações sobre a excelência do banco em negociação de ações. Escrevia um relatório e pedia o almoço.

Uma hora depois o almoço chegava a sua mesa, geralmente comia um hambúrguer com molho. Quase todos os dias nessa hora chegava o email de uma colega de trabalho que sentava no mesmo andar, mas que ele nunca havia conhecido pessoalmente.

Era um email muito simples, com poucas palavras, seguindo um modelo:

                                               Papel:BBDC4

                                               Tipo: Compra

                                               Quantidade: 127.000

                                               Cliente: X1458BZ31OP

E aí começava a jornada de trabalho Hare Krishna de Pedro. Acabava seu almoço com pouca pressa, sabendo o que lhe esperava, e de pequenos em pequenos lotes fazia o processo por algumas horas, olhando firmemente para um dos quatro monitores sobre sua mesa.

E durante esse processo chegavam outros emails com outras tarefas, algumas urgentes que faziam com que Pedro interrompesse seu mantra. Algumas relacionadas à distribuição de ações, o que levava Pedro mexer no programa e sair do layout de desmarcar casas.

Então completava seu dia, e rumava à faculdade em pleno horário de pico. Mais algumas horas da Consciência de Krishna. Queria se formar e virar gerente. Fazer basicamente as mesmas tarefas, mas ter alguém pra mandar e ganhar um salário melhor. Aplicaria uma parte na previdência privada e com sessenta anos se aposentaria – quem sabe entraria num acampamento Hare Krishna.

Ia para as aulas sobre assuntos distantes, com pouca ou nenhuma aplicação prática no negócio de desmarcar casas, e voltava para casa meia noite, dessa vez lendo textos para sua formação. Dormia e acordava no dia seguinte desperto para sua rotina espiritual de descascador de grão-de-bico.

Word Count

L’Esprit du Temps – 1903

The Bet, by Anton Chekhov – 2871

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2 pensamentos sobre “Descascador de grão-de-bico

  1. Uller, pode ser muito, muito pessoal essa observação minha, mas sinto que é esse o objetivo dos comentários:
    A problemática toda da situação de Pedro me lembrou muito, muito mesmo (de um jeito diferente, mas de mesma essência) as narrativas do Kafka. Claro que o problema de Pedro não é extremamente absurdo – e é isso que me inconforma, pois devia ser e é.
    Pedro calejou, como muitos.
    Gostei muito do texto, eu queria ter essa facilidade em levar a narração, geralmente os meus são muito curtos e se os alongo, me perco. VOcê fica com o foco lá, como um furinho de agulha que você memorizou.
    TO gostando muito do blog, abração!

    • Poxa, Fecer, muito obrigado pelo comentário!

      Eu tinha pensado nessa flash story de uma maneira diferente, mas depois vi esse contorno kafkiano (não vamos exagerar, também! No dia em que eu chegar ao nível de Kafka, posso me aposentar haha). Eu tinha pensado mais em como esse conto seria facilmente uma ficção científica se eu tivesse escrito nos anos 50, ou se tivesse adicionado elementos futuristas. Mas não, é só o presente comum e habitual.

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