Woody Allen Reviews| #2 – Manhattan Murder Mystery

Os filmes do Woody Allen podem ser excelentes substitutos à ausência de seriados para assistir. Com um formato padrão de filmes curtos – que equivaleriam a dois episódios de uma série de drama – e piadas excelentes distribuídas ao longo da história, os longas de Allen são uma fantástica forma de entretenimento.

E não boto nisso nenhum demérito. Claro, a maioria dos filmes vai muito além, assim como várias séries também são mais do que puro passatempo (friso Mad Men). Mas foi assim que assisti a Manhattan Murder Mystery. Uma madrugada tediosa sem nenhuma vontade de ler ou fazer qualquer outra coisa. E aí escolhi aleatoriamente Manhattan Murder Mystery. O fato de ser o filme imediatamente anterior à Don’t Drink the Water é puramente incidental, mas pode me ajudar a escrever mais sobre a diferença de tom entre os dois.

Manhattan Murder Mystery é uma comédia policial. Não chega a ser uma sátira, há todo um enredo em torno do crime, mas obviamente o que mais toma a cena são os diálogos de Woody. Para descrever melhor, assim como Allen conseguiu unir humor e a forma de documentários em seus mockumentaries – sendo Take The Money And Run pioneiro nessa técnica, Manhattan Murder Mystery também mescla os gêneros policial e comédia. É diferente de Match Point, um drama policial em sua completude.

Ao contrário de Don’t Drink the Water, o enredo não tem nada de previsível, dando várias voltas até chegar a um desfecho digno de um romance noir. Woody Allen representa Woody Allen como sempre, mas dessa vez no papel de um editor renomado. Diane Keaton – que interpretou a musa dos relacionamentos quebrados em Annie Hall, volta depois de anos a atuar num longa do diretor e não decepciona.

A dupla trabalha de maneira fluida como nos velhos tempos de Annie Hall e Manhattan. Como curiosidade, Keaton atua nesse filme devido às tensões no relacionamento de Allen com Mia Farrow – já próximo de seu fim, com o diretor se relacionando com sua enteada de dezessete anos, Soon-Yi Previn.

Como um filme do Woody Allen não é um filme do Woody Allen sem pelo menos a sugestão de adultério, Alan Alda interpreta um escritor amigo do casal principal – Ted, que se envolve pouco a pouco com a personagem de Keaton. E do lado da personagem de Allen se aproxima a escritora Marcia Fox, interpretada por Anjelica Huston.

O enredo começa como um típico longa do diretor, mostrando um casal que faz parte da elite intelectual nova-iorquina, frequentando ópera e afins, os Liptons, Larry e Carol. Como comum aos habitantes de Nova York, o casal não conhece seus vizinhos, até que cruzam com outro casal mais idoso no elevador, os House. Nesse encontro rápido, a vizinha oferece café aos Liptons, e Larry se entedia com o Sr. House, que insiste em mostrar a coleção de selos.

Alguns dias depois a sra. House morre de enfarto fulminante. Numa conversa de bar, os Liptons contam a história na mesa, o que em forma de brincadeira levanta suspeita de assassinato, orquestrado pelo viúvo, Sr. House. Contam para a paranoia o fato do Sr. House estar muito tranquilo e Carol ter encontrado uma urna funerária no apartamento de seu vizinho.

Ao longo da trama, Larry se mostra relutante em aceitar a tese da esposa, o que abre espaço para que Ted se aproxime e compartilhe a “investigação” com Carol. Eles criam mais intimidade, e planejam abrir um restaurante. Ao mesmo tempo, Larry conhece Marcia Fox, uma escritora sexy que tem conhecimentos em apostas de pôquer.

Percebendo o papel que Ted toma na vida de sua mulher, Larry arranja encontros entre seu amigo e Marcia. Contudo, conforme as investigações avançam, Larry é obrigado a assumir que o caso é mais do que simples paranoia de sua mulher, e que talvez um crime realmente tenha sido cometido. Quem ajuda a matar a charada é a escritora Marcia Fox, para ciúme de Carol, que acompanhava o caso desde o começo.

Paro aqui para não dar mais detalhes sobre o longa. Digo que é muito interessante, e que vale a ida à locadora. A produção é incomparavelmente superior à de Don’t Drink the Water, a trilha sonora agrada bastante, e o roteiro continua afiado como manda a assinatura do diretor. Garante boas gargalhadas, especialmente quando o personagem de Allen se intromete na investigação.

Como filme policial certamente não é referência, mas acredito que essa não foi a intenção de Woody. O roteiro trabalha com alguns dos elementos mais comuns ao gênero e inclusive cita outros clássicos do cinema e da literatura, como The Lady From Shanghai de Orson Welles e o ainda fresco (à época) Silence of the Lambs.

Uma das comédias mais finas de Allen, perde apenas para os clássicos que o imortalizaram como The Purple Rose of Cairo, e outros que sempre cito por aqui (Annie Hall, Manhattan). Foi um filme que me deu vontade de ver ou rever os longas mais sérios de Allen, Match Point por exemplo.

Não é um filme descartável, mas atendeu bem ao meu desejo de matar o tédio durante uma madrugada. Recomendo a todos que queiram apreciar Woody Allen em sua exata medida, mesmo durante um período um pouco apagado de sua carreira. Como comparação geral(que sempre gosto de fazer), é melhor que Don’t Drink the Water mas pior que Bullets Over Broadway – ainda a comédia que mais me fez rir em todos os tempos. Merece uma resenha, inclusive. Quem sabe não assisto de novo e escrevo.

Word Count

L’Esprit du Temps, by M. – 3812

The Curious Case of Benjamin Button, by F. Scott Fitzgerald – 9129

Woody Allen Reviews | #1 – Don’t Drink the Water

Um dos meus hobbies, afora escrever para esse blog, é assistir a filmes do Woody Allen nas horas vagas. Ainda não assisti a todos, mas acredito que eventualmente o farei. Nessa noite resolvi ver Don’t Drink The Water, de 1994, filmado para a televisão. Ao longo do filme tive vontade de escrever uma resenha aqui para o L’Esprit Du Temps, o que num pensamento com um toque de megalomania se transformou em uma série de resenhas sobre os longas de Allen que vier a ver.

Para explicar brevemente o formato dessa coluna, resenharei Woody Allen sem alguma ordem específica, cobrindo quase todos os filmes, conforme eu os veja. Não esperem aqui uma resenha de Annie Hall, Manhattan ou Midnight in Paris. Sobre esses filmes milhões de críticos especializados já discorreram e são obras-primas obrigatórias em um cânone universal de filmes.

Vou discorrer pouco sobre aspectos técnicos e curiosidades fora da tela. Caso você tenha interesse, recomendo fortemente o blog americano Every Woody Allen Movie, com maiores detalhes de todos os filmes do diretor. Basicamente darei minha opinião sobre o filme de uma forma comparativa a outras obras do mestre, minhas impressões e possíveis insights.

Don’t Drink The Water

Don’t Drink the Water é uma comédia escrita em 1966 para ser apresentada nos teatros da Broadway. Uma versão cinematográfica foi lançada três anos depois – sem a participação de Allen, que considerou o longa terrível. Em 1994 dirigiu uma versão da peça para a televisão.

Não recebeu muita verba e ainda é uma adaptação de peça. Isso explica o ar Sai de Baixo da comédia: um só cenário, a embaixada norte-americana em Moscou; poucos personagens, todos com alguma característica pitoresca; e algumas cenas de pastelão, que não desmerecem o filme em nenhuma medida, só o tornam mais palatável para a grande massa.

O longa narra a história de uma família judia de Nova Jersey, os Hollanders, que decidiram passar as férias na Europa – para desgosto do pai, Walter, interpretado por Allen, que repete várias vezes como ele preferia ter ido à Atlantic Beach – e acabam confundidos com espiões em Moscou após desviarem da rota do guia turístico, sendo obrigados a procurar abrigo na embaixada dos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo o embaixador norte-americano havia se ausentado por algumas semanas, e deixado no comando da embaixada o filho incompetente, Axel Magee. Toda a trama se desenvolve nas tentativas de fuga da família Hollander e o caráter irredutível de Walter, que não se adapta de nenhuma maneira às situações adversas. Ainda há uma relação afetiva entre o embaixador interino e a filha de Walter, Susan.

É uma história com um enredo simplista – pude prever o final nos primeiros quinze minutos. Nem por isso deixa de ser uma das melhores comédias de Allen que assisti. Apesar de não ter a genialidade de outros trabalhos, foi o filme do diretor em que mais ri depois de Bullets Over Broadway.

Quando os Hollanders perguntam sobre a duração de sua estada na embaixada, Axel responde que na mansão que abriga a sede diplomática vive um padre refugiado há seis anos. Descobre-se então que esse padre tem um hobby de cárcere, a mágica, ainda que ele seja terrível nos truques. Padre Drobney dá um toque de humor mais prosaico ao filme – chega ao ponto do pastelão, contrapondo com os diálogos de Allen, que apesar de muito mais pobres que as inteligentes linhas de Annie Hall, ainda são muito específicas para atingir o público global da televisão.

Walter Hollander e sua mulher aparentam não entender a gravidade de sua situação, já que discutem a maior parte do tempo o negócio de catering em Nova Jersey, as fofocas do bairro e da família, os inconvenientes da cozinha extremamente sofisticada da embaixada e seu chef neurótico, que se torna o maior inimigo de Walter. Nessa linha aparecem algumas das melhores falas de Allen, como essa (em tradução livre, como todas as traduções de trechos nesse blog):

Eu não posso assistir ao baseball, eu não posso ir ao teatro, e você sabe que eu fico perdido sem meu urologista”

O enredo também se desenvolve ao redor de Susan e sua relação com Axel. Conforme o tempo de cativeiro aumenta a garota se apaixona pelo diplomata, e rompe com seu noivo nos Estados Unidos – dermatologista, com especialidade em implantes de cabelo e considerado um bom futuro por Walter e Marion, sua mulher. A cena em que Susan revela aos pais que dispensou seu noivo para ficar com Axel é simplesmente uma das mais cômicas de toda carreira de Woody.

Walter argumenta quais seriam os motivos de Susan, ao que ela responde:

“Eu não estou apaixonada por ele”

                “O homem te comprou uma navalha elétrica cara, como você poderia não estar apaixonada por ele?”

A discussão segue, e a filha dá alguns outros motivos no diálogo com o pai:

“Ele não é romântico o suficiente”

                “Eu acho ele muito romântico!”

                “Não é você com quem ele anda de braços dados”

                “Então se ele estivesse de braços dados comigo, você se casaria com ele?”

Em suma, esse seria um Woody Allen típico, mas é muito mais leve que outras comédias do diretor. As atuações estão decentes, mas não há nenhum destaque individual. A produção é simples, e consta que todo o processo de criação do filme durou apenas duas semanas. É muito interessante pelas sátiras aos ideais dos pais da classe média no contexto de Guerra Fria.

E é isso que leva ao fato que apontei em outros pontos da resenha, esse é um dos mais divertido filmes de Allen, e o espectador não terá perdido seu tempo assistindo a ele. Não se destaca na extensa filmografia do diretor, mas com certeza garante um bom momento de humor inteligente. Gostaria de assistir a uma encenação da peça, para ver como os elementos são apresentados. Numa soma geral, é melhor que Vicky Cristina Barcelona, mas pior que Take The Money and Run.

Word Count

L’Esprit du Temps, by M. – 2901

The Curious Case of Benjamin Button, by F. Scott Fitzgerald – 9129

Descascador de grão-de-bico

Pedro entoava em sua mente o mantra Hare Krishna. Ao mesmo tempo fazia um trabalho que não necessitava ser feito caso algum programador tivesse planejado corretamente o software de distribuição de ações entre corretoras. O trabalho consistia em desmarcar uma casa, apertar a seta para a próxima, e confirmar quando saltasse a caixa de alerta. Desmarcar uma casa, apertar seta, confirmar quando saltasse. Era como descascar grãos-de-bico um a um para a salada do Natal, mas sem saber quando o fim estava chegando.

Antes de começar estimava quantas vezes teria que fazer isso. Um milhão de ações. Se estivessem distribuídas em lotes de duzentas, teria que repetir o processo cinco mil vezes. Quinze mil cliques. Desmarcar a casa, apertar a seta, confirmar. Tomando dois segundos por operação, seriam dez mil segundos, quase três horas. Obviamente a firma não deixou instalar um programa de repetição de cliques.

O mais aflitivo era não saber a funcionalidade dessa tarefa. Na verdade, nem as pessoas que lhe ordenavam fazer isso sabiam a utilidade. Era uma simples falha de sistema, que atualização após atualização ninguém se atrevia a resolver. O trabalho de Pedro em sua maior parte resumia-se a fazer coisas que não precisavam ser feitas.

Se consertassem todas essas falhas, Pedro poderia ser demitido. E a verdade é que mesmo não pensando muito nisso, essa perspectiva não lhe desagradava. Desmarcar a casa, apertar a seta, confirmar.

Para que isso não se tornasse seu mantra, Pedro repetia o hino Hare Krishna em sua mente. Nos primeiros dias de seu trabalho tentava rezar Ave-Marias – rosários e mais rosários de ações – mas se confundia no meio da oração, e perdia o ponto que estava. Ou pior, desmarcava a casa errada, tendo que voltar para corrigir.

Se Pedro fosse vegetariano, já poderia se considerar Hare Krishna. Sua rotina de transporte ao trabalho consistia em andar quinze minutos até o ônibus, mais meia hora de condução, pegar o metrô por dez estações, e subir em outro ônibus até a porta do trabalho. Tudo isso de roupa social. Quando encontrava lugar sentado, Pedro lia. Mas como isso era raridade – sendo o mais comum ficar espremido entre várias pessoas – Pedro cantava o Hare Krishna para si ao longo da viagem.

Chegava cedo, comia uma barra de cereal e tomava uma xícara de café, sentava-se à mesa e se preparava. Começava consertando gráficos que vinham errados de fábrica, depois fazia apresentações sobre a excelência do banco em negociação de ações. Escrevia um relatório e pedia o almoço.

Uma hora depois o almoço chegava a sua mesa, geralmente comia um hambúrguer com molho. Quase todos os dias nessa hora chegava o email de uma colega de trabalho que sentava no mesmo andar, mas que ele nunca havia conhecido pessoalmente.

Era um email muito simples, com poucas palavras, seguindo um modelo:

                                               Papel:BBDC4

                                               Tipo: Compra

                                               Quantidade: 127.000

                                               Cliente: X1458BZ31OP

E aí começava a jornada de trabalho Hare Krishna de Pedro. Acabava seu almoço com pouca pressa, sabendo o que lhe esperava, e de pequenos em pequenos lotes fazia o processo por algumas horas, olhando firmemente para um dos quatro monitores sobre sua mesa.

E durante esse processo chegavam outros emails com outras tarefas, algumas urgentes que faziam com que Pedro interrompesse seu mantra. Algumas relacionadas à distribuição de ações, o que levava Pedro mexer no programa e sair do layout de desmarcar casas.

Então completava seu dia, e rumava à faculdade em pleno horário de pico. Mais algumas horas da Consciência de Krishna. Queria se formar e virar gerente. Fazer basicamente as mesmas tarefas, mas ter alguém pra mandar e ganhar um salário melhor. Aplicaria uma parte na previdência privada e com sessenta anos se aposentaria – quem sabe entraria num acampamento Hare Krishna.

Ia para as aulas sobre assuntos distantes, com pouca ou nenhuma aplicação prática no negócio de desmarcar casas, e voltava para casa meia noite, dessa vez lendo textos para sua formação. Dormia e acordava no dia seguinte desperto para sua rotina espiritual de descascador de grão-de-bico.

Word Count

L’Esprit du Temps – 1903

The Bet, by Anton Chekhov – 2871

Paisagem hipnótica

Um deserto. Siga minha voz. Um deserto cujo oásis é Casablanca. Mantenha-se calmo, num deserto todas suas preocupações são menores. Preocupe-se em respirar. Casablanca está próxima. As dunas mudam de cor ao longo do dia. Brancas, laranjas, vermelhas, cinzas, azuis. Respire, siga minha voz ao longo da viagem. Caravanas de beduínos cruzam com nossos camelos e nós trocamos algumas palavras. Mantenha-se calmo.

Um deserto de neve. No caminho a Casablanca. A neve começa a cair do céu lentamente, como o maná dos deuses. Respire, siga minha voz. Veja como cai a neve pelo céu azul. Todas suas preocupações são menores. Casablanca está próxima. As dunas permanecem à sua frente, embranquecidas de neve. À noite não haverá mais neve.

Uma pedra esconde uma caverna. Um oásis no caminho do grande oásis. Mantenha-se calmo, a neve continua caindo. Respire, vamos adentrar a cova. Siga minha voz. Ouça o barulho da água correndo. Você sente frio, a caverna é inteira em gelo. Deite-se na caverna. Sinta-se confortável. Você não tem vontade de levantar. Respire e não se preocupe.

Veja a árvore. No meio da caverna ela cresce frondosa, uma oliveira antiga. Os troncos retorcidos. O rio segue a seu lado. Siga minha voz. Respire, ouça o barulho do rio. Você pode se controlar. Observe as estalactites de gelo. Veja como a água pinga no solo arenoso. É muito perigoso nos perdermos. Mantenha-se calmo.

Observe o fogo. Pouco a pouco a oliveira se queima, chamas calmas a consomem. Acalme-se. O fogo não vai lhe queimar. Siga meu comando, você não sente nenhuma vontade de levantar. Respire.  As chamas mudam de cor. Vermelhas, laranjas, amarelas, azuis, verdes. Mantenha-se calmo, observe as flamas até que toda a oliveira vire cinzas.

Atlas, o titã. No lugar da oliveira, veja Atlas. Ele não carrega nada em suas costas, as chamas destruíram o globo. Respire. Mantenha-se calmo. O globo não é necessário. Siga minha voz. A viagem ainda é longa. O titã está livre.

Quero que você se levante calmamente. Siga minha voz nesse momento. Vamos sair da caverna. Sinta a areia nos seus pés. Toque a areia, mexa sua mão. Mantenha-se calmo. Não há mais neve do lado de fora. O calor toma conta de você, começando por suas extremidades. Siga sua viagem. Casablanca está próxima.

Word Count

L’Esprit du Temps – 1238

The Bet, by Anton Chekhov – 2871

Post Inaugural

Decidi escrever um blog. Como toda inauguração de blog, meu objetivo no primeiro texto é detalhar minhas motivações e gerenciar as expectativas dos meus leitores. Como se vê pelo meu início, esse não é um blog inovador ou revolucionário. Vai ter a estrutura conhecida, padrão. Eu escrevo, posto com uma regularidade que será cada vez menor até eu desistir de vez, e vocês comentam.

Já mantive outros blogs anteriormente, nenhum deles com muito sucesso, mas claro, eu também só escrevia cretinices e a divulgação era basicamente minha família e alguns amigos. Não acredito que esse será diferente, mas é de graça, então por que não tentar.

Começo explicando meus motivos para escrever. Não acredito naquele ditado de que você deve ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Mesmo porque, as pessoas que acreditam nesse ditado nunca o cumprem. Nem a parte mais fácil, que é plantar uma árvore, eles fazem.

Vamos supor que uns cem milhões de pessoas acreditem nesse ditado. Se todas elas decidissem cumpri-lo, começando pela tarefa mais fácil (podendo desistir depois), teríamos cem milhões de árvores a mais.

Num chute por baixo, uma conta de padaria, eu estimei que a Amazônia possui cerca de um bilhão de árvores. Nada mal, ter um 10% a mais de Amazônia. Acho que esse volume seria suficiente para dobrar a Mata Atlântica.

O segundo problema com o ditado é o último item da lista. Escrever um livro. Vamos supor que um sujeito crente na necessidade desse ditado para a completude de uma vida perfeita escreva e publique seu livro. Para se fazer uma tonelada de papel, são necessárias vinte árvores. Coloquemos um livro que pese duzentos gramas. Para uma tiragem de mil livros seriam necessárias quatro árvores. Nosso amigo do exemplo só plantou uma árvore. As outras três ele derrubou de colegas que desistiram antes de escrever um livro ou ter filhos.

E claro, eu nem considero o número de árvores que nosso amigo da vida completa suprema vai gastar em seu ensejo de ter um filho. Mas nem sei por que estou falando sobre árvores. Desse modo, poderiam até pensar que eu sou ecologista. Eu sinceramente não me importo com elas.

Não acredito nesse ditado, enfim. Não me lembro de ter plantado uma árvore – não me oporia a plantar uma, todavia – e não me vejo tendo um filho no futuro. Mas gostaria de algum dia ter um livro meu publicado, matando o número de árvores que for.

Não tenho a pretensão de trabalhar como escritor. Vou arrumar um emprego comum, ganhar meu dinheiro e quem sabe ficar rico um dia. Mas sou um amante de literatura, e eu falo muito mais do que penso, e talvez se eu começasse escrever, pudesse sair alguma coisa boa.

Contudo – ao contrário da crença popular e dos manuais de escrita – escrever não consiste em apenas sentar e soltar palavras aleatórias. Eu me lembro de um conselho de um manual de escrita (sim, eu já li alguns deles), afirmando que se você se dedicar a escrever mil palavras por dia, no final do ano vai ter 365000 palavras, confortavelmente distribuídas em seis livros de tamanho curto.

Sobre o que esses livros vão versar, eu não posso nem imaginar. É só sentar e escrever mil palavras por dia. Verbetes do dicionário randomicamente distribuídos, num romance dadaísta, talvez fossem válidos para o escritor do manual.

Em ressalva minha, apesar desses conselhos inúteis dos manuais de escrita, eu acredito sinceramente que escrever leva a escrever, de forma que um blog poderia ser um bom pontapé inicial para chegar a desenvolver um enredo com maior profundidade.

Isso me leva ao segundo objetivo desse texto, gerenciar as expectativas de vocês, leitores. Não, esse não vai ser um blog sobre escrever. Eu já estou bem cansado de escritores que escrevem sobre escrever, culpa da geração beat. Não é que eu não goste dos beats, mas Machado de Assis simplesmente sentava a bunda na cadeira e escrevia, assim como Dostoievski ou Balzac.

Mas estou cansado de romances sobre escrever e afins. Claro, eu ainda assisto a filmes do Woody Allen regularmente, leio Fante e Hemingway. Sinceramente os prefiro a qualquer Machado de Assis.

O blog não vai versar sobre escrever, isso foi dito. Sobre o que eu escreveria, então? De maneira simples, eu não sei. Como eu falei no começo desse post, esse não é um blog revolucionário, e como todo blogueiro amador, eu não sou especialista em nada, nem mesmo em minha própria vida.

Quando eu sentir vontade de escrever, sobre o assunto que for, eu sento e escrevo – talvez verbetes do dicionário, vá saber. Claro, quanto mais reação eu tiver de leitores, mais motivado ficarei a escrever sobre o assunto comentado. E claro, se eu insistir em escrever sobre esportes, por exemplo, que é uma matéria que não entendo nada, pouco a pouco vocês desistirão de mim com toda razão do mundo. Basicamente, é a regra de oferta e demanda.

Não escrevi minhas mil palavras, mas cheguei perto. Não vou escrever todo dia, tenho toda uma vida pra levar. Mas prometo me dedicar a esse blog com a mesma empolgação de vocês leitores, por ele.

Word counting:

L’Esprit du Temps – 860

The Bet, by Anton Chekhov – 2871