A Literatura

Os Miseráveis é um daqueles livros que te convencem da sacralidade da literatura. Lia-o ontem. Se alguma é minha religião, a literatura ocupa esse posto. Morasse na Alemanha, doaria meu dízimo da fonte para a religião literária. Pensei em outros livros com esse status sagrado, à cabeça me vieram vários: Os Ensaios, A Montanha Mágica, Ulisses. Vários outros. Pra não falar da Bíblia – A Ilíada.

Claro, esse é meu templo particular, mas o templo literário – dos que seguem o credo, claro – é composto de livros mais ou menos comuns, todos pertencentes a um cânone – o depósito de cultura de nossa civilização. Nossas pinturas rupestres para gerações futuras. Não analiso aqui o que define um clássico. Harold Bloom, Italo Calvino, entre outros, já fizeram isso de maneira muito mais competente que eu.

Meu objetivo é entender a atração, minha e de outros fiéis, pela literatura. Enquanto lia Os Miseráveis, ontem, pensava nisso. Por que não conseguia me desviar da ficção de Hugo? Pensava nas personagens, nas teses sobre Paris que demoram páginas e mais páginas, e ainda assim, passam leves. Todas as referências, que em maioria não fazem sentido para o leitor atual.

Digressão: um dos prazeres da literatura são as referências. Quando um escritor as põe, ele te dá o dever de conhecê-las. Por mais que existam notas de rodapé, a falta de conhecimento às referências leva à perda de ritmo, e nunca vai haver compreensão completa. São como palavras desconhecidas, só que sem um dicionário para checar, e que fazem total diferença para o sentido geral. É difícil entender quando Philip Roth fala de Aschenbach e Tadzio, se você não conhece a referência. Ao mesmo tempo, saber que Aschenbach é inspirado em Mahler muda completamente a perspectiva que o leitor pode ter de uma mera citação em um livro de Roth. Em resumo, pois temo ter perdido o ponto: referências são as palavras mais importantes de um livro. São a definição mais perfeita e mais hermética para um conceito que o autor queira apontar. Ao mesmo tempo, nenhum livro vem com um pequeno receituário: “Para a melhor compreensão, é necessário a leitura prévia das seguintes obras …”

Aí vai uma ideia para irritar leitores. Escrever um romance dependente de outros romances, e alertar explicitamente antes. Talvez colocar um ou outro livro em excesso na lista prévia, para forçar críticos literários a encontrarem a relação, e, ao mesmo tempo, forçar o leitor a ler um livro da preferência do autor, e, assim, recuperar referências.

Continuando na digressão, as referências te dão, além disso, a oportunidade de conhecer alguma coisa que se perdeu. Montaigne, por exemplo, morrerá em definitivo em breve. Anatole France, que, simplesmente, controlava todo o cenário literário mundial da virada do século, que fez Carlos Drummond falar besteira (segundo o Mario de Andrade, pelo menos), está morto. Morto, mais falecido impossível. Não encontrei, em nenhuma livraria, edições de sua obra, nem em português e nem em francês. Em sebo devo encontrar, mas gostaria de entender o que matou Anatole. Aliás, Stendhal é o próximo falecido. Tinha uma influência tão grande até a década passada, e, agora, está completamente esquecido. Um agradecimento público que faço é aos definidores das referências em literatura, por salvarem Padre Vieira.

Prometo que aqui acaba a digressão que me comeu quase todo o texto. Qual é o fascínio pelos grandes mestres da literatura? Encontrei um esboço de resposta ontem, enquanto lia Victor Hugo. Jean Valjean, que por sinal nem apareceu nas cinquenta páginas que li, é o exemplo máximo de perfeição cristã. Ele é um super-homem sem poderes, exceto o dinheiro (que só Victor Hugo poderia legar-lhe) e um excessivo senso de caridade. Uma espécie de precursor de Batman.

Mas além de Jean Valjean, Victor Hugo é um super-herói. Ele, ao contrário da personagem, tem um poder. Ele pode escrever de uma maneira que eu jamais poderei. Por mais que eu me dedique a ser um falsário, eu nunca chegarei à perfeição do plágio. Por mais que eu me dedique a escrever de maneira própria, aos meus olhos eu nunca vou chegar à perfeição de Victor Hugo, e o mais bonito é que não há maneira objetiva de medir a qualidade literária. Por mais que eu crie meu épico, em minha mente eu nunca chegarei ao nível de James Joyce. Mesmo que um leitor meu possa me colocar em um altar em seu templo literário, eu vou morrer mortal.

Bons autores são os únicos super-heróis de que tenho conhecimento. O poder de criar boa literatura é um dos poucos que são únicos. E é esse o fascínio da literatura, a contemplação de sua própria incapacidade e a crença em algo maior possível neste mundo.

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L’Esprit du Temps, by M. – 14.600

The Metamorphosis, by Franz Kafka – 21.810

Não vai ter Maracanaço!

Escrevo no dia 3 de julho de 2014, alguns dias antes da final da Copa do Mundo de 2014. A Copa das Copas. Quase todas as seleções apresentaram um futebol lindo e gols espetaculares foram marcados. Quase. E isso é o que explica o porvir de meu texto. Não vai ter Maracanaço. Mesmo que o Brasil perca de 4 a 1 para a Argentina no dia 13, não vai ter Maracanaço. Por dois motivos muito simples.

O primeiro é a própria Seleção brasileira. A Seleção não cativa os torcedores desde o começo da Copa, e não vejo como começaria a cativar agora. Os brasileiros parecem todos torcedores não praticantes. Todos torcem pelo Brasil, mas ninguém se importa o suficiente. Muitos gritos durante o jogo e poucas crianças com insônia pensando na escalação.

Vários são os motivos dessa Seleção alheia ao torcedor. O primeiro são os próprios jogadores, que não são muito carismáticos. A maioria nunca teve uma base de fãs muito grande, como Hulk ou como quase todo o banco de reservas. Criou-se um carismático David Luiz alguns meses antes da Copa, que não cola exceto nos torcedores mais ingênuos. E algumas das “estrelas” não estão produzindo, como os laterais Marcelo e Daniel Alves. Falta um Robinho no banco, pra alegrar as comemorações.

A Família Scolari, invenção do pentacampeonato, não existe. Falta um samba, sorrisos, alegria. Talvez isso se deva a mudanças na cobertura jornalística. Até 2002, pelo menos, havia uma presença mais próxima dos jogadores com a mídia. A Fátima Bernardes entrava no ônibus da Seleção, havia peculiaridades sobre os países sedes e os pedidos pitorescos da Seleção no hotel em que estavam hospedados.

O próprio Felipão perdeu carisma, também. Ele não parece mais ser aquele técnico levado pela fé, que motivava a equipe e dava bons conselhos. Cada dia mais ele parece um burocrata, e parece que não se importa tanto com os resultados como se importava em 2002.

O segundo motivo é o próprio futebol da Seleção. Normalmente, havia espaço para o individualismo, para grandes craques que pontuavam em todas as partidas. A Seleção de 2014 tem o mérito de ser um grande corpo, o que pode mesmo ajudar na conquista do título. Não há muito espaço para individualidades. Nem Neymar produz esse efeito, ainda que tenha sido decisivo em dois jogos. O resultado é um futebol chato. Não necessariamente mal jogado, mas muito chato.

Outras seleções se saem melhor nesse quesito. A seleção alemã é o primor: tem uma excelente equipe e excelentes jogadores que se destacam individualmente. Além do carisma que eles demonstram no Brasil, visitando equipes locais, aldeias indígenas, fazendo caminhadas na praia, distribuindo sorrisos e autógrafos.

A Holanda é outro caso. Sediada no Rio de Janeiro, é comum os jogadores irem à praia, tomarem água de coco, passarem a noite nas baladas cariocas. E, de fato, dependem quase exclusivamente da individualidade de alguns iluminados, como Robben, Van Persie ou o caçula Memphis Depay.

E praticamente toda seleção das oito restantes nas quartas de final têm mais carisma que a brasileira. A única exceção é a Bélgica. As outras, seja pelo fator zebra, como a Costa Rica, seja pelo desprendimento, como a Holanda, pelo belo futebol apresentado, como França e Colômbia, ou pelos talentos individuais, como a Argentina, superam o Brasil.

Além da Seleção brasileira e sua comparação com os pares da Copa, outro motivo é importante para a inexistência de um Maracanaço: a excelente organização do evento aqui no Brasil. Tudo o que nossa Seleção não cativa em campo, nós cativamos como povo para os visitantes e mesmo para os moradores locais.

Não creio que a eliminação do Brasil em alguma fase anterior, ou a derrota na final, derrubará o ânimo do brasileiro. Estamos contentes de receber a Copa, e já saímos vencedores por isso. Uma derrota, por mais que alguns gostassem que tivesse reflexos na vida política, não terá. A Copa já está vencida por ter sido um espetáculo, com vários gols e jogadas bonitas.

Não creio que haverá um novo Maracanaço. Primeiro porque mesmo com um futebol chato, a Seleção ainda pode levar o título. Além disso, mesmo a derrota não será uma lástima. Seja pela própria equipe, sem carisma e sem espaço para a individualidade, ou pelo sucesso do evento em si, que trouxe alegria aos brasileiros no campo e fora dele, com os estrangeiros lotando os bares e sendo figurões engraçados, e, talvez infelizmente, efêmeros.

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L’Esprit du Temps, by M. – 13.817

The Metamorphosis, by Franz Kafka – 21.810

Crônica pretensiosa com Ernest Hemingway.

Ernest Hemingway se dirigia para minha casa. Tive a sorte de conhecê-lo um desses dias enquanto comia um lanche na padaria. Ele sentou a meu lado e pediu uma omelete e um conhaque. Reconheci sua barba e as queimaduras em seu braço. Fiquei sumamente impressionado e comecei a puxar um assunto, quem não puxaria, afinal de contas? Ele se interessou quando descobriu um fã de Graciliano Ramos na padaria, e assim o convidei pra comer uma pizza em casa. Ele não gosta muito dessa coisa de celular, então marcamos que ele apareceria no meu apartamento às 8 e só me restava esperar.

Lá pelas nove o porteiro anunciou que Ernesto queria subir e eu deixei entrar. Hemingway estava em São Paulo há alguns meses, mas não tinha feito nenhum grande amigo, apesar de sempre andar pelos círculos intelectuais. Ele gostava do Brasil, ainda que sentisse a falta do pundonor espanhol. E claro, lamentava profundamente a falta de um bom lugar para caçar ou pescar nas redondezas.

Então ele entrou levemente embriagado, elogiou o aconchego de meu lar e pediu alguma coisa para beber. Fiz uma caipirinha improvisada e tomamos enquanto esperávamos a pizza. Ernest elogiava a sinceridade de Graciliano, sobre como ele se sentia angustiado ao ler a morte da cachorra Baleia. Ele ainda lutava com o português, apesar da semelhança com o castelhano, e mantinha o sotaque que claramente denunciava sua nacionalidade.

Terminou o primeiro drink enquanto eu começava a apreciar o meu, então dei a minha caipirinha a ele e fui fazer outra para mim, e ele me olhava atentamente ao fazer a bebida. Parecia que queria aprender passo a passo, para fazer em alguma festa quando retornasse aos Estados Unidos.

Então ele reparou que eu não bebia muito.

“É verdade, eu não bebo muito”.

“Eu não consigo entender por que você é ansioso, então.”

“Como?”

“Todo sujeito ansioso que eu conheci só o era até conseguir a próxima dose. Me lembro do Scott”.

“Interessante o que você fala, o médico disse que eu sofro de ansiedade, mesmo.”

“Você foi num médico para isso?”

“Sim, por quê?”

“Interessante.”

Uns minutos mais e a pizza chegou. Ernest havia entornado três coquetéis e eu havia desistido de fazer mais caipirinhas e lhe servia logo a cachaça pura em shots, o que ele apreciava e agradecia. Eu tomava uma cerveja, e devo ter vertido uma ou outra dose de cachaça pura, e minha cabeça já começava a girar. Comemos a pizza, o que foi um grande alívio para mim, e resolvi passar para a Coca-Cola, deixando meu companheiro sozinho na bebida – ele aparentava maior sobriedade que eu.

Voltamos a discutir literatura brasileira. Eu confesso que estava bem desatualizado sobre os nacionais, basicamente parei nos clássicos e resolvi me dedicar mais à literatura estrangeira – inclusive li quase tudo do Papa que estava agora à minha frente. Pensei em lhe recomendar Guimarães Rosa, mas não achei que ele tivesse português suficiente para apreciar. Escolhi um ou outro Machado de Assis da minha biblioteca para lhe emprestar, e recomendei veementemente que ficasse longe de José de Alencar.

Ernest começou então a cochilar no meu sofá, ou a tentar, já que o brilho dos monitores e o barulho do computador o incomodavam muito.

“Então você sofre de ansiedade?”

“Sim, sofro”

“E como é isso?”

“Bom, é como pensar em uma coisa e não conseguir concluir por já ter outra coisa nova na mente. Aí quando você pensa em fazer alguma coisa, uma outra ainda aparece na sua cabeça que te impede de fazer qualquer uma de todas as coisas que você esteja pensando. Você quer, não sei, sair pro parque, mas aí você pensa em todas as coisas que podem te acontecer no caminho pro parque, e em todas as opções que você vai deixar de aproveitar pra ir na porra do parque. Ao mesmo tempo todas opções não parecem ser boas o suficiente para compensar a não-ida ao parque, e no final você fica em casa. E tem um ruído constante na sua cabeça que não para e as pessoas te mandam meditar. Entende?”

“Acredito que sim. É uma doença de quem vê excesso de opções.”

“Eu diria que sim. É a doença do custo de oportunidade.”

“Muito bonito”

“Como?”

“Às vezes eu queria ver uma opção que fosse. Mas por que você não desliga esse computador?”

“Eu queria, mas aí eu durmo pior. Fico com medo de acordar de madrugada e não conseguir acessar o computador logo, e por fim acordo de madrugada.”

“Que loucura. Que bom que você nunca esteve na guerra, você seria o primeiro a morrer.”

“Acho que sim.”

Ele se virou no sofá tentando mais uma vez cochilar.

“Você sabe”, disse com a cara virada para o encosto do sofá e com a voz meio abafada pela almofada, “eu acho que Hamlet tinha esse distúrbio.”.

“Ser ou não ser. Você deve estar certo”.

Ele ainda murmurou antes de dormir.

“Ansiedade. Queria sofrer disso. Acho que o Scott era ansioso de verdade.”

 

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L’Esprit du Temps, by M. – 13.081

The Metamorphosis, by Franz Kafka – 21.810

Meus centavos | A Espuma dos Dias, por Boris Vian

SPOILER ALERT – Essa resenha vai falar quem morreu e quem esteve sempre morto.

L’écume des jours veio a minha mão de maneira completamente aleatória. Olhava o site da editora francesa Le Livre de Poche e vi que o romance de Vian se encontrava entre os mais vendidos. Interessei-me, então, e comprei na Livraria Cultura a edição em francês. Eu não sabia completamente de que havia um filme lançado na França e pra ser estreado no Brasil. O que é muito idiota de minha parte, considerando que a capa do livro mostrava a Audrey Tautou.

Capa do filme, e por acaso capa da minha edição  duh!

Capa do filme, e por acaso capa da minha edição duh!

Comecei minha leitura sem nem imaginar sobre o que se tratava. A resenhinha atrás falava algo sobre o mundo do jazz de Ellington e uma paródia de Sartre, mas eu não podia imaginar sobre o que se tratava o enredo. Meu francês não é ainda fluente, então tomei um susto quando me deparei com situações como uma enguia que era atraída por pasta de dente de abacaxi, e depois preparada por Nicolas para o almoço.

Não sabia se Vian queria fazer alguma espécie de piada, ou se era só uma espécie de mundo louco. Logo a segunda hipótese prevaleceu, para meu alívio, e garantindo uma viagem especial por um mundo completamente peculiar. Ainda que abundem piadas ao longo do livro.

O enredo se foca na vida de Colin, um jovem rico que não precisa se preocupar em trabalhar, e seu amigo Chick – viciado no filósofo Jean Sol Partre (paródia clara e explícita de Sartre, amigo de Boris Vian) quase como se pode viciar em uma droga. Além deles, há o cozinheiro e companheiro Nicolas.

Após Chick conhecer uma garota legal, Alise – sobrinha de Nicolas, Colin decide se apaixonar por alguém. Conhece então Chloé, que tem o mesmo nome de uma de suas músicas favoritas de Duke Ellington. Ao mesmo tempo, dá um quarto de sua fortuna para seu amigo Chick para que ele se case com Alise. O dinheiro vai ser gasto todo em edições de Jean Sol Partre.

O relacionamento avança e os dois se casam de maneira opulenta em uma Igreja Católica um pouco diferente. Na lua de mel, Chloé é infectada com um nenúfar que cresce em seu pulmão. A flor a devora e a única cura é cercá-la de outras flores, o que mina a fortuna de Colin, que logo se vê obrigado a trabalhar.

O cenário de Vian é onírico no sentido mais preciso. É como se o autor tivesse transcrito um sonho completo para o papel. O surrealismo vai muito além de máquinas e situações inimagináveis – como o Pianocktail de Colin, ou de paredes que se curvam ao som de jazz. A loucura está muito mais nos personagens e na maneira com que agem.

Os diálogos que envolvem negociações são o principal exemplo: em uma situação, Colin vai vender seu pianocktail, e insiste para o comprador pagar menos do que estava disposto a oferecer. Em outra, Chick vai comprar acessórios do Partre e o vendedor lhe pergunta se ele iria mesmo comprar, se não gostaria de lhe assaltar.

O único negociador que mantém a lógica real de barganha é, não por acaso, a Igreja. Quando Colin tem dinheiro, é oferecido um casamento de luxo. Quando não tem, faz-se questão de oferecer o pior enterro possível.

Outra situação louca é um dos empregos de Colin, como fornecedor de calor para a construção de armas. O trabalho consiste em ficar deitado nu sobre as armas-bebê, para que cresçam com um pouco de calor humano. Mas Colin é incompetente também nisso.

A história gira em torno da decadência de Colin à medida que tenta salvar sua mulher que só piora do nenúfar, e o desespero de Alise ao ver Chick afundando cada vez mais em Jean Sol Partre. Ao final, Chick a abandona pelo filósofo. Alise, indignada, aproxima-se de Partre com uma máquina de tirar corações e calmamente negociam sua morte. Por garantia, a mulher sai matando todos livreiros da cidade, e queimando suas lojas.

O último trabalho de Colin é como anunciador de notícias ruins. O emprego consiste em anunciar notícias ruins antes que aconteçam, como mortes e acidentes, apenas com função de aumentar a previsibilidade, já que o destino é inevitável. Um dia Colin é obrigado a anunciar a si mesmo que Chloé morreria no dia seguinte.

O romance de Vian não deixa lições de moral fáceis. É uma crítica ao trabalho pós-Revolução Industrial, uma crítica à filosofia de grife, entre outras coisas. O sonho de Vian parece extremamente realista quando estamos devidamente imersos em sua fantasia, e as desgraças do mundo real não desaparecem. Também é uma ode ao jazz, à época em sua força máxima com os representantes do bebop.

Algumas semanas depois descobri que o filme seria lançado no Brasil. Fiquei extremamente ansioso, e fui conferir um dia após a estreia. Não havia assistido a nenhum filme de Gondry – nem Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Não sabia o que esperar, portanto. Chloé é interpretada pela onipresente Audrey Tautou – em minha opinião muito envelhecida para o papel, ainda que atue bem no longa.

Para mim o filme foi uma decepção. Não é que esteja mal-produzido, mas ele simplesmente não tem o mesmo mood que o livro. O diretor deu um ar de Castelo Rá-Tim-Bum que não existe no livro. Aquela personagem do ratinho, por exemplo, é extremamente tosca e poderia ser suprimida – já que no livro ela é bem irrelevante.

Como ponto positivo, a perda de luz e de cores à medida que o filme vai avançando é genial e encarna bem o espírito de Vian. Eu não sou muito fã daquelas pessoas que ficam bradando “o livro é bem melhor que o filme”. Em geral elas estão certas, mas a versão no cinema, apesar de tudo, consegue captar o espírito que o autor pretendia.

A Espuma dos Dias é um dos casos em que eu terei que ser um dos chatos. O livro é um clássico que adiantou algumas das novidades do movimento beatnik em dez anos, enquanto que o filme é no máximo passável. Essa versão para o cinema, apesar de ter sido feita com carinho, vai cair no esquecimento.

Contudo, eu consigo perdoar o diretor e toda equipe. Não sei como alguém conseguiria transpor para o cinema o universo surrealista de Vian sem cair em excesso de efeitos especiais e superficialidade da verdadeira loucura do livro, presente nos diálogos. Vale a ida ao cinema, nem que seja para se interessar em ler o livro.

Aliás, para quem não fala francês, a Cosac Naify vai lançar uma nova edição em breve (ou já lançou, nem sei). Recomendo que confiram! Esse livro deveria ser mais conhecido no Brasil.

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L’Esprit du Temps, by M. – 12.249

The Metamorphosis, by Franz Kafka – 21.810

Meus centavos | O Idiota, por Fiódor Dostoiévski.

Acabei de ler O Idiota, de Fiodor Dostoievski. Fazia muito tempo que não lia escritores russos e estava completamente desacostumado com o estilo. Demorei um pouco para engrenar no enredo, mas pouco a pouco fui me ambientando. Já deixo claro que esse não é o melhor romance de Dostoievski, mas também está longe de ser o pior e vale com certeza a pena de lê-lo.

Antes de começar a falar sobre o texto, quero fazer uma menção à edição e à tradução. Minha fase de vício nos russos foi mais ou menos uns sete anos atrás, e li praticamente tudo de Dostoievski e Tolstói. Contudo, duas vezes já havia pegado O Idiota para ler – em edições bem fajutas com traduções obscuras – e nas duas acabei desistindo.

Comprei a preciosíssima edição da Editora 34 com desconto em uma feira do livro na USP. A tradução é do renomado Paulo Bezerra, e se baseia diretamente no texto em russo. Devido ao preço, eu não havia lido nenhum outro autor russo nas traduções da 34, e apesar de imaginar, a diferença é muito mais do que apenas sensível em relação a outras edições. Para deixar em termos mais claros, é como comparar uma Mercedes com um Gol 1.0 – ambos te levam a teu destino, mas a viagem é completamente diferente.

Versão primorosa da Editora 34 - tradução de Paulo Bezerra.

Versão primorosa da Editora 34 – tradução de Paulo Bezerra.

Por influência dos autores russos, eu havia estudado um pouco do idioma no passado, e embora tenha esquecido muito com o passar dos anos, pude perceber nitidamente a preocupação do tradutor em manter o modo de construção literária russa. Todas as outras traduções que tive contato possuíam um ar francês, o que se explica por serem traduções de traduções francesas.

Além do trabalho sempre primoroso da 34 em oferecer edições de luxo. Li recentemente A Divina Comédia pela editora, e também não me arrependi. O Idiota conta com gravuras interessantíssimas de Oswaldo Goeldi, inicialmente publicadas para edições da José Olympio nos anos 40.

Em suma, os preços salgados da 34 se justificam, ainda que sejam uma grande barreira para vários leitores. Vi que a editora está lançando alguns títulos em versão pocket, talvez se interessem no futuro em lançar alguns de seus russos. A Cosac Naify, outra editora de ponta, também conta com a mesma iniciativa. Há uma perda evidente da qualidade da edição, mas se é para uma maior democratização de um trabalho primoroso, eu apoio e até mesmo compro, já que não sou milionário.

Com uma pequena nota, apenas. Paulo Bezerra utiliza muitas vezes a palavra incontinênti, que convenhamos, é uma palavra que salta aos olhos. Eu gostaria sinceramente de saber se o tradutor escolheu usá-la com algum critério, talvez até tradução literal, ou se apenas apareceu por aparecer. Enfim, notas de um leitor chato. Isso é tudo sobre a edição e tradução, começo a falar sobre o texto.

Dostoievski conta em O Idiota a história do príncipe Mishkin, que sofre de epilepsia e é a definição pura de imaculado. É um ser completamente altruísta, capaz de perdoar até as maiores injúrias – e são várias ao longo da história. O príncipe perdeu os pais ainda na infância e foi adotado como pupilo por um senhor de terras abastado, que posteriormente o enviou para um sanatório na Suíça.

Os personagens principais são apresentados todos na primeira parte do romance. O príncipe se encontra com Rogójin e Liebdiev no trem a caminho de Petersburgo, quando voltava para a Rússia depois de abandonar/ser expulso do sanatório. Então somos apresentados à casa dos Iepantchin, com a irritante generala e a central Aglaia, filha mais nova com um temperamento muito peculiar. Também somos apresentados à Gavrila e a sua família, com o mentiroso de carteirinha, general Ivolguin, e o desprezível Fierdischenko. E mais importante, somos apresentados à Nastassia Filipovna – em minha opinião, a melhor personagem do romance.

Nastassia é uma moça órfã como Mishkin, que cresceu no campo e teve o azar de ter como pupilo o aristocrata Totski, que a molestava sexualmente. Mais crescidinha, Nastassia se muda para Petersburgo com o intuito de extorquir o velho – que queria casar-se com alguma outra garota mais respeitável. Nastassia , portanto, é desgraçada desde o início e isso que dá a tônica de seu comportamento ao longo do enredo.

Ao final da primeira parte, descobrimos que Mishkin tem direito a uma herança milionária, e ele pede Nastassia em casamento, que recusa e parte com o impulsivo Rogójin – que havia coletado cem mil rublos para oferecer como dote. Nastassia joga o dinheiro ao fogo, para aflição geral de sua plateia.

Não vou me estender sobre o enredo. O livro é interessante e tem uma história envolvente. Como todo russo, Dostoievski mistura teorias de temas do pensamento russo e religião com cenas sugestivas e diálogos marcantes.  E obviamente o tema do niilismo é presente.

Resumindo antes de me ater a pontos que quero marcar, O Idiota conta a história da inserção de Mishkin – uma espécie de alien completamente imaculado, um Jesus Cristo inconsciente de sua divindade – na sociedade corrompida russa do Século XIX, e sua obsessão por duas personagens, Aglaia Iepantchina e Nastassia Filipovna. Apesar de Dostoievski ir além, o conflito básico é entre Mishkin e as duas mulheres. O final naturalmente não pode ser bom.

É importante lembrar que Dostoievski tinha um carinho todo especial por Mishkin, visto que ele próprio também era epilético. Para o autor, a loucura do príncipe era uma espécie de chaga que lhe garantia pureza, a mesma pureza que permitia com que Mishkin se desse bem no trato com crianças. A personagem também é comparada várias vezes com Don Quixote, outro louco idealizado.

O primeiro ponto que quero marcar que afeta um pouco a graça da história, ao menos para mim: a maior parte do enredo se passa em Pavlovsk, uma cidade do interior em que os ricos passavam o verão – uma Combray russa, por assim dizer. Isso deu um toque francês para O Idiota, e minimiza uma das maiores qualidades que vejo em Dostoievski: Petersburgo.

O autor descreve tão bem a cidade em outros romances (especialmente Crime e Castigo e Noites Brancas), as andanças pelas ruas, os personagens populares. Petersburgo é uma personagem de Dostoievski per se. O Idiota praticamente não tem personagens do povo, no máximo alguns membros de uma classe média. Pessoalmente, acredito que Dosto se sai melhor ao descrever o povão.

Além disso, ao ler Dostoievski, todos nós esperamos automaticamente que vá haver um crime interessante, narrado de uma maneira especial e que iria afetar toda a história. Bom, O Idiota tem o crime apenas como desfecho – ainda que seja narrado do modo genial que só Dostoievski sabe.

Outro ponto sobre os personagens, a verdade é que Dostoievski caprichou. Eu digo, caprichou na maldade. Não tem uma personagem sequer com quem me simpatizei ao longo do enredo, e minha vontade era que aparecesse um atirador e matasse todo mundo. Todos são péssimos, exceto Mishkin que só é muito bobo e chega a ser chato de tão idiota, o que provavelmente significa que Dostoievski acertou.

Ainda assim, a genialidade do autor está sempre presente. É especialmente notável a cena do jogo de Fierdischenko, em que os presentes deveriam contar de forma sincera sua pior história. Entre outros, estão presentes à mesa Totski e o general Iepantchin, além de Nastássia Filipovna. O primeiro, que estuprava Nastássia, conta uma história até inofensiva sobre como ele ferrou com um amigo em uma questão amorosa – na maior cara de pau. A cena é simplesmente uma das melhores de todo Dostoievski, e impossível de ser resumida com justiça.

Também é marcante a presença do coadjuvante Keller (aparece pouco, mas sempre consegue gerar ódio no leitor), que inventa as piores calúnias sobre o príncipe para um jornaleco em um caso particular, e depois é convidado para ser padrinho de casamento pelo próprio Mishkin.

O Idiota era a leitura que faltava para me dar por satisfeito com Dostoievski. Ainda há alguns outros romances e contos que não li, mas confesso que nenhum me chama muito à atenção, exceto talvez O Duplo.

É um romance muito prazeroso de se ler, e podemos ver um Dostoievski diferente – que olha de cima para baixo. A experiência é interessante, e todo aficionado em literatura russa não pode prescindir de se dedicar ao Idiota. Gostaria de saber as opiniões de quem já leu, de quem leu outro Dostoievski, de quem pretende ler um dia, ou de quem quiser falar qualquer coisa.

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L’Esprit du Temps, by M. – 11.149

The Metamorphosis, by Franz Kafka – 21.810

Retratos fictícios de São Paulo | Seu Jairo

Seu Jairo é taxista, e tem uma frota na Rua Gaivota, em Moema. É um cara moderninho, tem GPS e localizador em todos seus dez táxis. Implementou ultimamente um aplicativo que permite que os clientes localizem seu táxi mais próximo. É conhecido no bairro, todos gostam de sua presença.

O taxista é o exemplo do self made man. Começou como taxista de um rádio taxi, mas foi economizando e juntando dinheiro até poder comprar sua própria viatura, e depois, o próprio ponto. A prosperidade seguia e alguns anos depois comprou seu segundo táxi. E daí foi um pulo para montar o resto da sua frota – e também para comprar um apartamento em Moema, na Rua Pavão.

“Sempre quis morar perto do trabalho. Como você sabe, o trânsito é o maior inimigo do taxista. Assim, acordo as seis, levo minhas filhas pra escola a pé e começo o dia”. O ponto funciona vinte quatro horas, mas depois de quase trinta anos de trabalho, Seu Jairo passa o turno da madrugada para dois de seus funcionários, ainda que afirme que trabalhou nas noites paulistanas durante muito tempo e saiba das dificuldades e perigos.

“Todo sábado à noite acontecia de alguém vomitar no meu táxi, e eu perder a noite inteira de trabalho. Fora os assaltos”. Seu Jairo já foi assaltado mais de dez vezes em sua carreira, e todos seus empregados o foram pelo menos uma vez. A violência sempre foi uma constante na cidade, apesar de Seu Jairo achar que melhorou com o tempo.

Acompanhamos o taxista em todo dia de trabalho. Começou com um cliente antigo, que trabalhava em um dos escritórios da região, que já havia reservado uma viagem ao aeroporto. Seu Jairo estava animado, são as viagens ao aeroporto que dão mais lucro. Pegamos um pequeno trânsito, e Lopes – o passageiro – estava um pouco preocupado em perder o voo.

“Conheço o Seu Jairo há mais de dez anos, ele já é uma referência em Moema. É um taxista idôneo, que não engana o cliente e faz de tudo para que o passageiro desfrute da melhor viagem possível”, diz Lopes. E pudemos atestar que é verdade. O táxi de Seu Jairo é um modelo espaçoso, e possui uma televisão por satélite instalada. O chofer se orgulha, dá pra ver até canais alemães e chineses.

“Outro dia entrou um grupo de franceses do meu táxi, eu coloquei na televisão de lá, estava passando notícias, eles ficaram extremamente agradecidos e deixaram uma bela gorjeta”. O taxista conta que aprendeu o inglês ano passado, fez um curso noturno com um de seus funcionários. Agora, ele diz, quer que todos no ponto aprendam o idioma para a Copa. Ele mesmo já se arrisca no Espanhol, mas confessa que não sabe nada da língua: “É meio parecido com o português, né? Eu aprendi alguma coisa como calle, tarjeta, dirección, já dá pra conversar”.

E Seu Jairo gosta muito de conversar. Sempre conta suas histórias de tempos passados em São Paulo e dá suas opiniões. Seus alvos preferidos sempre são os prefeitos. Mesmo os que tem a simpatia de Jairo sofrem críticas. O único imaculado é Jânio Quadros. “A cidade era um brilho nos tempos do Jânio. Eu achava lindos os ônibus de dois andares”. Questionado se eles não atrapalhavam o trânsito, Seu Jairo é enfático: “Não mais que esses biarticulados! Que ideia terrível! Isso só acontece no Brasil. Imagine se a Nhambiquaras é lugar de passar ônibus, quanto mais biarticulado! Mal passa um carro ali”.

A solução para o trânsito, segundo Seu Jairo, é muito fácil. É só construir mais metrô. “Eu tenho vários clientes engravatados que pegam táxi nos dias de rodízio, e todos eles dizem que deixariam o carro em casa se houvesse metrô da porta de casa à porta do trabalho. E olha que são bem ricos!”.

Seus clientes mais frequentes gostam de ouvir a opinião do taxista – ele não acredita na necessidade de pena de morte para estupradores, mas defende veementemente castrá-los quimicamente. Ele também não é a favor da volta dos militares, mas é um dos poucos malufistas restantes.

Após deixar Lopes no aeroporto, Seu Jairo aproveitou e pegou outros passageiros, dessa vez dois americanos que vieram a negócios e ficariam no Renaissance da Alameda Santos. Seu Jairo nos proibiu de falar português no carro, e em inglês fomos até o hotel, fazendo algumas perguntas aos passageiros.

Eles confessaram que o maior medo que sentiam do Brasil era a violência, e ficaram extremamente temerosos quando passamos pelas favelas ao longo da Ayrton Senna. Seu Jairo os tranquilizava, e dizia que não passariam por nenhum problema – ligou a televisão na CNN para deixar seus clientes mais confortáveis.

Quando pediam dicas, Seu Jairo era sempre atencioso e recomendava lugares clássicos de São Paulo, como o Sujinho. “Se vocês gostam de carnes, é a melhor bisteca que vão provar, posso garantir”. Ao chegarmos ao hotel, o taxista desceu, tirou as malas e entregou o cartão a seus passageiros. “Podem me chamar quando estiverem voltando, levarei vocês com a maior satisfação”.

Sempre que pega algum cliente estrangeiro, Seu Jairo faz questão de deixar seu cartão. “Metade realmente me liga para leva-los ao aeroporto na volta”. Nisso já era quase meio dia e Seu Jairo sugeriu um almoço no próprio Sujinho – ficou com vontade após a sugestão dada.

Enquanto comíamos a famosa bisteca, Seu Jairo falava alguns dos principais problemas que via na cidade. A falta de segurança, é claro. E o trânsito. Além disso, reclamou do excesso de mendigos nas ruas, dos noias do centro da cidade. “Alguém deveria fazer alguma coisa por aquelas pessoas”. Seu Jairo pediu uma água com gás e falou que antigamente possuía o hábito de tomar uma cervejinha no almoço – mas agradece a conscientização que a Lei Seca trouxe. Para ele essa foi a melhor lei feita no Brasil. Essa e a Lei Antifumo. Também é grande fã do ex-governador José Serra, mas não o poupa de suas críticas.

Após o almoço, Seu Jairo colocou o táxi para funcionar de novo, e antes de cinco minutos um passageiro o chamou. Era um jovem que ia para a Universidade de São Paulo, assistir a uma palestra. Seu Jairo lhe ofereceu o jornal e começou a discutir as notícias do dia. Como todo taxista e praticamente todo brasileiro, não dispensa um futebol e sabe as notícias de todas as contratações dos clubes brasileiros e europeus. O jovem desceu no seu destino, e Seu Jairo rumou para Moema.

Após algumas viagens curtas, Seu Jairo voltou para casa. Hoje não iria trabalhar à noite. O caixa registrava quinhentos reais. “É um dia médio, às vezes conseguimos mais, outras vezes menos, depende da sorte”. Fechou a conta e agora iria para um curso de profissionalização do sindicato com seu funcionário mais antigo, Maurício. Parou em casa para tomar um refresco e ver a mulher e as filhas.

Dona Larissa havia acabado de chegar em casa, trabalha em uma agência bancária a poucas ruas de distância. “É bom porque dá pra buscar as filhas no horário de almoço, eu deixo uma coisa pronta aqui de noite e nós comemos de dia”.

“Essa aqui tá pensando em seguir carreira no turismo”, apontou  Seu Jairo orgulhosamente para a filha mais velha, Tainá, de 16 anos. Seu Jairo não quer que nenhuma de suas filhas siga carreira de taxista – mesmo que tenha uma funcionária mulher no ponto, acredita que é uma profissão muito perigosa, especialmente para uma mulher sozinha. “Deixá-las dirigir um táxi seria um medo constante, essas ruas são muito perigosas”.

Mas gostaria que as filhas herdassem o ponto construído pelo pai com tanto esforço, e Tainá até esteve presente na reunião com a empresa de aplicativos para táxi. “Foi meio sem querer, eu tinha interesse em aplicativos no celular, e fui com meu pai para a Livraria Saraiva do Shopping Ibirapuera, para ver livros. No entanto, o papo no café estava tão interessante que eu até fiz algumas perguntas”, diz a jovem.

Tamiris, mais nova, tem apenas oito anos, e por enquanto os únicos táxis que se interessa são os de brinquedo, que comprou na viagem que fez o ano passado com a família para Orlando. “A alegria dessa menina no avião foi o combustível pra todo esse ano de trabalho, essa família é tudo para mim”, conta Seu Jairo, com um princípio de lágrimas nos olhos.

Desceu então e encontrou Maurício, e seguiram para o encontro no táxi deste. “Trabalho com o Seu Jairo há vinte anos, e não é porque é meu chefe, mas encontrar outro igual a ele é impossível. É meu amigo mais do que patrão”. Seu Jairo agradeceu timidamente, e falou que estava pensando em abrir sociedade com Maurício para expandir a frota.

Participaram da reunião e fizeram inúmeras perguntas. O tema do curso era como inserir tecnologia no dia a dia do taxista. Voltaram para Moema pelas dez da noite, cansados, mas satisfeitos.

“Eu escolhi ser taxista meio que por acaso. Gostava muito de dirigir, e pensei que podia fazer algum dinheiro com isso. Descobri nisso meu dom, e não poderia ser mais feliz. Quero agora só expandir minha frota, e continuar com o bom trabalho”, conclui Seu Jairo, com um sorriso sincero no rosto.

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L’Esprit du Temps, by M. – 9736

The Metamorphosis, by Franz Kafka – 21.810

Religion, Me, Tetris and Iliad.

Estou num momento curioso de redescoberta da divindade. Eu nasci em uma família católica e segui a religião até mais ou menos o momento da minha comunhão. Aliás, minha catequese foi o que mais me desvirtuou. As aulas maçantes e bem mal explicadas não eram nenhum incentivo para que qualquer jovem seguisse qualquer religião. E como sempre fui uma pessoa inconformada, logo comecei a questionar e vi que não tinha motivo para ser católico – para algum desgosto do meu pai, que posteriormente assimilou.

Aliás, numa digressão. Esse ano foi muito importante para o catolicismo, na medida em que pôde rever seus valores, métodos e práticas com a escolha do novo Papa. Uma das mudanças mais importantes que faria – fosse eu o Sr. Francisco – seria mudar o formato de catequese, e especialmente, dar mais preparo aos catequistas. Eu sou extremamente partidário da ideia de que uma aula pode mudar a vida de uma criança. Mas encerro a discussão, mesmo porque não sou católico, e por mim a instituição pode afundar inteira.

Passei por um período de ateísmo completo, o que foi realmente bom para mim. Era um momento em que eu confiava em mim mesmo e não tinha necessidade de alteridade alguma. Passei alguns anos sem questionar o ateísmo e não me arrependo, sinceramente. Várias das minhas conquistas não tiveram relação com Deus.

Contudo, eu acreditava de algum modo que avançávamos todos ao infinito, que conforme eu me dedicasse a algo – mas uma dedicação sincera, eu conseguiria alcançar o que desejasse depois de certo tempo. Era quase uma propaganda da Nike. Eu sei, parece uma crença ridícula, não é assim que a vida funciona e só um garoto mimado poderia pensar isso. Mas era assim que eu pensava, até recentemente.

E agora vem minha contribuição ao pensamento Allenesque. Nunca fui um grande fã de jogos. Joguei poucos ao longo da minha vida, e acho que só tive um video game. Eu realmente não gosto muito. Um dos poucos jogos que gostava de jogar na minha infância era o genial Tetris. Tem algumas semanas encontrei meu Game Boy antigo (verdade seja dita, era o do meu irmão), e o cartucho de Tetris. Obviamente fui jogar.

Ao mesmo tempo, estive lendo a Ilíada. Sou um grande fã de literatura, mas eu, assim como praticamente todos os amantes de literatura, fazemos um caminho todo confuso de leituras. Claro, isso é culpa de nossa formação escolar. Para nossas escolas – e ressalto que eu tenho que agradecer todos os dias por ter estudado em uma decente – o que há de mais clássico em literatura é o período que viemos a chamar de Realismo. Os estudos sobre períodos anteriores é extremamente superficial e vemos apenas como pitoresco. Grego e latim são desprezados, e grandes mestres como Homero – ou mesmo Shakespeare – são completamente esquecidos.

Meu caminho natural, assim como de muitos outros jovens, foi começar pelos realistas. Assim, logo com treze ou quatorze anos li todos grandes russos, pulei pro Realismo mágico de García Marquez e li algumas outras coisas. Ainda com quatorze anos comecei a ler Ulisses, só pelo desafio que se apresentava. Conforme fui evoluindo na literatura li outras coisas como Thomas Mann, Guimarães Rosa, Huxley ou Virginia Woolf, e ultimamente só estive lendo literatura moderna. Como exceção, li quase todo Shakespeare. Mas nunca havia lido nenhum clássico. Nenhum Homero, nenhum Dante.

E esses dois fatos, Tetris e Ilíada, me fizeram pensar na forma em que estou pensando em Deus nesses dias. Minha formação católica sempre me fez pensar que se existisse algum Deus, era um Deus redentor, que surge para nos salvar e só quer o nosso bem. É um Deus que atende seus pedidos e ânsias e perdoa todas nossas falhas. Creio que nunca havia pensado fora da caixa sobre esse assunto.

Tetris, como bom jogo arcade, não tem final exceto a derrota. A vitória do jogador é persistir o máximo de tempo fazendo o melhor desempenho possível. Ao mesmo tempo um computador sádico distribui peças de maneira perfeita pra te testar. Na teoria, a queda das peças é aleatória, mas na prática, todo jogador de Tetris sabe que o computador põe à prova sua capacidade de segurar o tranco. E ainda, conforme o jogo avança, as peças caem mais e mais rápido.

A Ilíada, por outro lado, apresenta a história de humanos guerreiros que apelam aos deuses, e divindades que só se diferenciam dos humanos pela imortalidade e alguns poderes especiais. Afrodite é ferida por Diomedes e salva Páris de Menelau. Zeus é enganado por Hera, que tem por intento ajudar os gregos. A falta de uma oferenda faz qualquer deus ficar ressentido com o humano em questão e até o prejudique. Os deuses, aliás, têm até papel de mediador quando Príamo se dirige a Aquiles para recuperar o cadáver de Heitor. E ainda uma outra característica, a personificação. Diversos elementos da paisagem e sentimentos são transformados em deuses, como o rio-deus Escamandro, que luta contra Aquiles, ou o deus Sono – que como o nome sugere, traz sono às pessoas.

São duas formas diferentes de pensar em Deus e no destino, Tetris e a Ilíada, e talvez esse texto esteja soando um pouco louco. Mas parando pra pensar nessa ótica, vemos duas concepções de transcendente que divergem completamente da tradição cristã que é dominante no Brasil e basicamente no mundo ocidental.

A vida segundo Tetris nada mais seria que organizar melhor os recursos e oportunidades que são distribuídas do céu por um ser superior. Conforme o tempo passa fica mais difícil aproveitá-los, e eventualmente, por mais cuidadoso que seja, você vai cometer um deslize que afeta a construção inteira, o que te leva mais perto do fim. De uma forma ou de outra, o desfecho é igual. Tudo o que resta é a glória de ter seu nome entre os recordistas. Mas mesmo o maior recordista foi derrotado por aquele “Deus” que joga as peças do alto. Aliás, forçando a barra, você perde o jogo quando chega mais perto da divindade sorteadora de recursos.

E por outro lado, os deuses da Ilíada são vaidosos, vãos, e não afetam em nada o destino após a morte. Independente de que regra moral sigam, todos mortais acabam no Hades. Cada mortal tinha um deus específico protetor. Por isso, os agrados aos deuses visavam apenas a benefícios materiais terrenos, e ao mesmo tempo, a falta para um dos deuses era digna de punição. Para os deuses, os mortais eram apenas joguetes para matar o tédio no Olimpo. Para os antigos gregos, a única maneira de se imortalizar era através de feitos heroicos que seriam lembrados para sempre no mundo dos mortais. É por essa razão que Aquiles resolve lutar ainda que saiba que esteja destinado a morrer. E numa pequena metáfora, é um pouco como o recorde gravado no jogo de Tetris. Aquiles era o maior dos Aqueus, ou o maior recordista de Tetris.

Tudo que escrevi até agora não tem nada a ver com qualquer crença pessoal. Não é que eu vá começar a matar bois para Zeus. São apenas coisas que me fizeram pensar em como a visão de uma divindade pode ser completamente diferente da que estamos acostumados. Nas religiões afro-brasileiras, por exemplo, a transcendência se aproxima muito mais da visão grega – ainda que de maneira completamente diferente – do que de um Deus cristão que te julga por suas faltas, mas que perdoa seus pecados e distribui bênçãos na sua vida.

Hoje me considero um agnóstico. Não penso mais que tudo seja possível, Mais precisamente, gosto muito da visão de Pascal sobre a aposta na crença em Deus, mas sinceramente, não sei qual Deus existe – considerando sua existência. Talvez seja um Deus que te dê forças em horas de dificuldade, talvez seja um Deus ao qual sejam necessárias oferendas e agrados, talvez seja um Deus indiferente. Não temos como saber. Mas jogar Tetris e ler a Ilíada me fizeram pensar nas diferentes formas que a humanidade enxergou e enxerga o contato com o transcendente.

Gostaria que meus leitores compartilhassem suas visões a esse respeito, ou visões ainda diferentes de outras religiões e grupos históricos. E claro, todo debate é incentivado aqui.

L’Esprit du Temps, by M. – 8199

The Curious Case of Benjamin Button, by F. Scott Fitzgerald – 9129